PS vai chamar jornalista Pedro Tadeu para esclarecer AR sobre artigo de opinião

Pedro Tadeu escreveu um artigo de opinião a denunciar anúncios de contratação de jornalistas para escreverem sobre pandemia. Os jornalistas deveriam estar integrados em redacções.

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Antigo edifício do Diário de Notícias Rui Gaudencio

O grupo parlamentar do PS anunciou nesta sexta-feira que vai convocar o jornalista Pedro Tadeu para prestar esclarecimentos à Assembleia da República sobre o seu artigo de opinião, publicado no Diário de Notícias, O jornalismo sobre a covid-19 é corrupto?.

A decisão surgiu depois da intervenção da presidente da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), Leonete Botelho, na comissão de Cultura e Comunicação, a pedido do grupo parlamentar do PCP, sobre a “recente existência de anúncios dirigidos a jornalistas detentores de carteira profissional, visando contratá-los para a elaboração de notícias e reportagens tendenciosas sobre a pandemia de covid-19”.

Para o deputado socialista José Magalhães, é “absolutamente indispensável” a vinda do jornalista Pedro Tadeu ao Parlamento para prestar os “devidos esclarecimentos” sobre o caso, tendo em conta que “a matéria apurada é muito escassa”.

“Há um estudante anónimo, uma declaração e uma hipótese”, refere.

Na sua intervenção, Leonete Botelho esclareceu que a comissão pediu esclarecimentos ao jornalista em causa sobre as acusações feitas no seu artigo de opinião, mas estes nunca foram dados, pelo que o órgão “não tem nenhum dado concreto para que possa actuar sobre jornalistas”. A responsável lamentou, a propósito, o “manto de suspeição sobre toda uma classe” que foi lançado com o artigo de opinião e sobre uma matéria tão importante como a da covid-19.

“De um trabalho jornalístico exigir-se-ia uma consistência nas acusações que são feitas, tanto mais devido à gravidade do tema que elas envolvem e, portanto, sendo o Pedro Tadeu, o autor do artigo de opinião, um jornalista, acharia pessoalmente que um trabalho deste género exigiria um trabalho jornalístico e não um difuso artigo de opinião”, disse.

Perante a ausência de informação, disse, a CCPJ considera que o caso deveria envolver um processo criminal, uma vez que poderá estar em causa um crime de corrupção para acto requerido que terá que ser sujeito a investigação.

Também a presidente do Sindicato de Jornalistas, Sofia Branco, ouvida nesta sexta-feira no Parlamento sobre o mesmo caso, a pedido do PS, referiu que a informação sobre o assunto é “muito escassa” e afirmou que o sindicato não tem qualquer informação sobre esta suspeição e nunca recebeu qualquer queixa ou denúncia.

Sofia Branco lembrou que o jornalista Pedro Tadeu não escreveu uma notícia, ao contrário de João Tomé que escreveu uma notícia sobre o assunto no Dinheiro Vivo, mas fez uma denúncia num artigo de opinião, que não obedece à verificação de factos e que lança, tal como referido pela presidente da CCPJ, “um manto de suspeição sobre toda uma classe”.

A presidente do sindicato lamenta assim que não tenha sido acautelado o princípio da responsabilidade colectiva pela credibilidade da classe. “Os jornalistas devem activamente denunciar, não se podem ficar por um mero artigo de opinião”, lamentou, referindo que só a divulgação dos nomes envolvidos no caso permitiria agir de uma forma criminal sobre o assunto.

Os requerimentos apresentados pelos deputados da comissão de Cultura e Comunicação decorrem de um artigo de opinião do jornalista Pedro Tadeu, no Diário de Notícias (DN), de 03 de Março, intitulado O jornalismo sobre a covid-19 é corrupto?.

Neste artigo, dá conta de anúncios titulados de “Procuro entrevistador/repórter”, com o objectivo de “assegurar a elaboração de reportagens, entrevistas, num tema específico relacionado com saúde, desenvolvendo investigação, reportagens e entrevistas”.

Relata a história de um amigo que se candidatou e que nas entrevistas ficou a saber que “as matérias que se pretendiam elaborar eram relativas à pandemia provocada pela covid-19”, que “o jornalista deveria focar os seus trabalhos na contabilização de números de mortos, número de infectados e níveis de contágio” e que era importante que o profissional trabalhasse numa redacção de um órgão de comunicação social de difusão nacional e tivesse poder para publicar propostas de trabalho suas.

“Quando tivesse a reportagem específica combinada com o recrutador, o jornalista deveria propor esse trabalho na sua redacção como sendo uma ideia sua. Caso conseguisse publicar, nos moldes combinados, seria remunerado por isso”, refere Pedro Tadeu.

“Ao que parece, está montado um sistema de contratação, por entidades estranhas ao jornalismo, de jornalistas que estejam a trabalhar em redacções para impingir nos seus jornais, rádios ou televisões matérias que, embora sejam baseadas na realidade (ninguém pediu para mentir), fossem capazes de alterar a linha editorial desses órgãos de informação”, salienta.

Na sua intervenção desta sexta-feira, Leonete Botelho, chamou à atenção dos deputados para o facto de o anúncio estar a dar um poder individual ao jornalista “que não corresponde à realidade”. “Não é assim que funciona. As redacções são um ecossistema de debate. Quem define a linha editorial é a direcção. O jornalista pode propor um trabalho, que depois de ser aceite é lido, editado, tem triagem, olhos, editores, que lêem e discutem, se não gostam. É um trabalho colectivo e não individual”, sublinhou.