Da calamidade educacional à urgência da recuperação

Mais do que reabrir as escolas e regressar ao ensino presencial, é prioritário incidir as atividades pedagógicas na recuperação desse atraso que permanecerá por muitos anos.

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Stefania Giannini, uma das referências da UNESCO na área da educação, escreve, no prefácio do estudo internacional “Uma calamidade educacional. Aprendizagem e Ensino durante a pandemia de covid-19”, que as alterações ocorridas nas escolas foram muito significativas em todas as dimensões, particularmente ao nível das aprendizagens perdidas pelas crianças e pelos jovens mais vulneráveis, devendo a recuperação estar centrada na inclusão, na resiliência e na transformação.

Mais do que reabrir as escolas e regressar ao ensino presencial, é prioritário incidir as atividades pedagógicas na recuperação desse atraso que permanecerá por muitos anos, com consequências quer no domínio dos conteúdos essenciais, quer no das competências socioemocionais. Como revelam os resultados preliminares do estudo realizado pelo Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), o ensino à distância provocou, efetivamente, atrasos nas aprendizagens das crianças e dos jovens, no período de março a junho de 2020.

Se, no regresso ao ensino presencial, em setembro de 2020, foram adotadas medidas no sentido de recuperar, durante as primeiras semanas, o atraso nas aprendizagens, a situação que se coloca agora – a partir de 15 de março (1.º ciclo) ou de 5 de abril (2.º e 3.º ciclos) ou de 19 de abril (secundário) — é bem mais complexa, não pelo tempo em que funcionou o ensino à distância, mas sobretudo pela acumulação de várias situações que em nada contribuíram para um regresso normal às escolas.

A recuperação das aprendizagens não realizadas faz-se tanto pela normalização do ensino presencial, em que as atividades pedagógicas seguem o curso das atividades curriculares previstas, quanto pela adição de medidas que tornem possível mais tempo de contacto das crianças e dos jovens com os seus professores, seja pelo lado dos tempos letivos, seja através de medidas de apoio pedagógico personalizado e inclusivo. Ambas as medidas são, decerto, o nó górdio do problema, ultrapassando a dimensão temporal deste ano letivo.

Tal como está a situação das crianças e dos jovens em termos de atraso nas aprendizagens, e sabendo-se das disparidades que ainda persistem, devido aos apoios que tiveram ou não dos encarregados de educação e ao acesso ou não aos recursos e materiais digitais, seria adequado que as medidas de adição não se tornassem em medidas de subtração.

Por isso, reimaginar a educação pós-Ccovid-19 passa por encontrar soluções adequadas e justas, de modo a responder aos problemas surgidos, e que jamais poderão ser proporcionalmente iguais nos ciclos e níveis de ensino, porque a não-realização de uma dada aprendizagem numa dada área ou disciplina e numa determinada idade é um fator bastante relevante.

Uma resposta diferenciada e inclusiva é aquela que poderá contribuir para uma solução capaz de evitar maiores danos, sabendo-se que as respostas de hoje serão a solução de muitos problemas de amanhã. Por outro lado, terá de ser uma resposta integral, não sendo apenas para determinadas áreas/disciplinas, particularmente para as que têm maior impacto na avaliação externa e nos testes em larga escala.

A pandemia não provocou apenas um retrocesso significativo nas aprendizagens das crianças e dos jovens, tendo também originado efeitos diretos na sua motivação, com a perda de interesse pelas atividades pedagógicas, em que a alteração das boas rotinas de aprendizagem levou à perda de ritmo de estudo e ao declínio da atenção na realização de muitas das tarefas escolares.

Com a redução das aprendizagens surge, inevitavelmente, o relaxamento e, em muitos casos, o abandono escolar. Para isso, as medidas de recuperação passam, de igual modo, por atividades direcionadas para o reforço da motivação das crianças e dos jovens pela escola, proporcionando o seu bem-estar socioemocional e a sua resiliência mental, porque sem estas medidas não fará muito sentido pensar nas de natureza mais cognitiva.

A pandemia teve impacto nos professores, não só pelas alterações nas formas de ensinar, mas também pela sua rápida adaptação a uma outra escola para a qual não tinham sido formados. Por mais medidas que existam para a recuperação das aprendizagens, se não existir um cuidado extremo com a questão da formação dos professores (competências digitais, por exemplo) e do seu desenvolvimento profissional (particularmente ao nível de uma colaboração sustentável), as mesmas perderão muito da sua acutilância no momento em que tocam o chão das escolas.

É certo que a pandemia originou vários problemas, mas, ao mesmo tempo, criou condições de mudança futura, com destaque para a inovação na aprendizagem por intermédio das tecnologias digitais, para a integração de competências essenciais para o conhecimento do mundo, de uma forma responsável e inclusiva, para uma formação dos professores que acompanhe a aceleração digital e, ainda, para uma comunidade educativa em constante diálogo.


O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico