Jorge

Pensava pela sua cabeça, era ouvido por quem lhe apreciava o equilíbrio, era um cidadão e um democrata de corpo inteiro. Mas a imagem do Jorge ia muito para além desse mundo.

Há pessoas que a vida nos oferece o privilégio de, um dia, podermos vir a ter como amigos. Alguém que começamos por conhecer num registo mais ou menos distante, cujo percurso vamos seguindo e de cujas qualidades, pela atitude, pelo exemplo, pelo caráter, nos vamos progressivamente apercebendo. E que passamos a admirar. 

Para mim, Jorge Coelho, que agora desapareceu, era uma dessas figuras. Criei com ele uma forte amizade e devo-lhe atenções, no nosso relacionamento pessoal e profissional, que nunca esquecerei.

Entrámos exatamente no mesmo dia para o governo, fomos convivendo por ali aquilo que as nossas funções justificavam, iamo-nos vendo e falando, ao longo desses mais de cinco anos. Havia mesmo, no início, como que uma certa cerimónia entre nós, ainda que sempre marcada por uma forte cordialidade. Fez, há pouco, 20 anos que coincidiu sairmos, também no mesmíssimo dia, do governo. Ele tinha tido então a dignidade de assumir, com frontalidade, a suprema responsabilidade política de uma tragédia ocorrida numa área que tutelava. O país reconheceria, para sempre, esse seu gesto de grande nobreza.

Depois, o Jorge veio a passar por um período muito difícil de saúde. Esteve então nos limites da vida. Recuperou, com imensa coragem, com a Cecília e a força da família a seu lado, que agora comovidamente abraço. Deu a volta à roda da vida, regressou a ela em pleno. Atirou-se, com um génio empresarial que mostrou que era o seu, a funções elevadas no setor privado. A Mota-Engil, com ele, abriu-se e expandiu-se pelo mundo. Sei bem que o seu grande amigo António Mota estará hoje, como muito poucas pessoas, a passar por um luto muito sentido pelo desaparecimento do Jorge.

Tendo abdicado por completo da política ativa, o Jorge não deixava de se interessar pela vida cívica. Nos debates televisivos, durante anos, o país apreciou a sua moderação e seu sentido da medida. Jorge Coelho era uma permanente voz da razoabilidade, sempre à luz da matriz de convicções de solidariedade que eram as suas, desde muito jovem. Pensava pela sua cabeça, era ouvido por quem lhe apreciava o equilíbrio, era um cidadão e um democrata de corpo inteiro. Mas a imagem do Jorge ia muito para além desse mundo: pergunte-se a empresários, sindicalistas e personalidades de vários setores o que o nome de Jorge Coelho lhes suscitava e observarão uma alargada opinião muito positiva.

Mas falar do Jorge, é falar também da sua imensa alegria, das histórias deliciosas que contava, do universo de coisas por que passou, que recordava sempre sem acrimónia, de onde retirava aspetos positivos. Nunca o vi rancoroso, embrulhado na intriga, que a política tantas vezes convoca. Pelo contrário, diluía conflitos e, mesmo na atitude crítica que assumia, tinha um imenso respeito pelos adversários.

Nos últimos anos, o Jorge decidiu voltar às origens. Retomando uma tradição familiar, dedicou-se à sua terra, a Mangualde, onde construiu uma unidade industrial de queijos que era, nos dias de hoje, o seu grande entusiasmo de vida. Que agora tem o seu ponto final. O país perdeu um grande cidadão. E eu perdi um amigo.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico