O desconfinamento e o estado da arte em Portugal

Em Portugal, podemos dizer que se faz muito e bem com pouco, mas não é possível fazer sem nada. Torna-se quase inconcebível para um jovem artista perseguir os seus sonhos sabendo que não haverá investimento nele enquanto profissional.

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Samuel Sianipar/Unsplash

O estado em que Portugal se encontra no início deste desconfinamento é crítico. Ninguém sabe como serão os próximos meses, há um clima de insegurança, todos queremos rapidamente inverter a queda da economia nacional e evitar que a pandemia nos retire mais vidas e boa gente do nosso país.

Todos os sectores já tiveram melhores dias sem a excepção do sector artístico. O estado da arte em Portugal sempre foi frágil, e tem vindo cada vez mais a ficar debilitado, sem força para se reerguer. No nosso país há excelente música, literatura, cinema, teatro, artes visuais, todo o tipo de arte em geral, mas a sociedade vê-se invadida por tendências artísticas predominantemente americanas que chegam munidas de investimento por parte do seu país, através das plataformas digitais e de plataformas artísticas mais comerciais.

Em Portugal, podemos dizer que se faz muito e bem com pouco, mas não é possível fazer sem nada. Torna-se quase inconcebível para um jovem artista perseguir os seus sonhos sabendo que não haverá investimento nele enquanto profissional, o que é quase irónico, uma vez que tanto investimos dos nossos impostos para a sua formação escolar. Estamos a financiar a formação de inúmeros jovens portugueses que depois se vêem obrigados a contribuir para a economia de outros países, não só na arte, em muitos outros ofícios.

Portugal vai começar uma nova fase, um novo capítulo da sua história através do desconfinamento e do plano de vacinação. Não podemos esperar que o Estado resolva todos os nossos problemas, todos sabemos que isso não irá acontecer. Podemos sim ajudar o nosso país a crescer, investindo nele, individualmente. Podemos apostar nos artistas locais, fazer uma pequena pesquisa, conhecer melhor aquilo que se faz em Portugal, ir a eventos artísticos, sugerir aos cafés e bares locais exposições e concertos ao vivo, dar a conhecer o que se faz cá ao mundo, informarmo-nos acerca da programação cultural da nossa zona, escolher um espectáculo para ir ver trimestralmente ou semestralmente, entre muitas outras pequenas acções que cada um pode fazer dentro do seu possível.

Enquanto jovem artista vi o meu futuro, por vezes ameaçado com a situação pandémica que todos enfrentamos. Sendo eu músico, tive de lidar com o cancelamento e adiamento de vários concertos, a maior parte destes ainda hoje sem data definida. No entanto, continuo a trabalhar diariamente para no futuro poder exercer a profissão que escolhi no país em que nasci e pretendo residir, assim como contribuir para a sua economia e crescimento enquanto cidadão de Portugal. Afinal, a arte deve ser valorizada, é como qualquer outra profissão, tem a faceta do entretenimento e de nos fazer pensar, sentir, emocionar e crescer. Os artistas também precisam de pagar a renda e de comer, o povo é o nosso patrão.

Portugal tem mais escritores com potencial para vencer o prémio Nobel à espera de serem apoiados e descobertos. Portugal tem imenso potencial cinematográfico e e os nossos filmes têm potencial para estarem em salas de cinema de todo o mundo. Portugal tem músicos nas melhores orquestras europeias que poderiam estar nas nacionais, e tem bandas que têm mais do que potencial para serem cabeças de cartaz em todo o mundo. Somos providos de excelentes artistas plásticos, actores entre muitos outros artistas. O retorno da indústria artística é milionário. Perdemos milhões por cada artista que desiste dos seus sonhos devido a dificuldades futuras ou que se vê obrigado a ir trabalhar para outro país. Cada um pode fazer a diferença, e não são só os artistas que ganham, ganha o país inteiro. O investimento na arte não é um investimento material, é um investimento na humanidade, na nossa saúde e no nosso desenvolvimento enquanto espécie.