Lesões desportivas em tempo de pandemia

Um estudo britânico revela que cerca de 14% das pessoas inquiridas se lesionaram durante a prática desportiva no confinamento. O Dia Mundial da Actividade Física celebra-se a 6 de Abril.

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Minna Hamalainen/Unsplash

A pandemia de covid-19 veio alterar toda a nossa forma de viver, durante o último ano. A rotina do dia-a-dia mudou de forma significativa para todas as pessoas, em todas as idades e em várias ocupações. Os hábitos de exercício e actividade física foram igualmente alterados.

Enquanto uns aumentaram ou iniciaram a prática desportiva, outros foram obrigados a interromper a sua frequência. A procura pela prática desportiva veio responder a diferentes necessidades, desde aliviar a tensão e a ansiedade que todos sentiram com as medidas restritivas, até perder aqueles quilos de peso extra entretanto acumulados.

Segundo dados de um estudo britânico, dois em cada três adultos, aproveitaram o período de confinamento para fazer actividade física e uma em cada cinco pessoas iniciou uma modalidade que até então não praticava.

A caminhada, a corrida, o ciclismo, o treino físico em casa e as aulas de ginásio online são as actividades mais populares nesta pandemia. Mas se estas mudanças nos hábitos desportivos tiveram um impacto positivo em muita gente, não devemos esquecer alguns riscos que lhes estão associados.

O mesmo estudo britânico revela que cerca de 14% das pessoas inquiridas se lesionaram durante a prática desportiva no confinamento, o que significa que se aplicarmos a mesma proporção em Portugal, poderemos ter um número aproximado a um milhão de novas lesões. A percepção enquanto ortopedista é que as lesões de sobrecarga têm sido mais frequentes nas consultas de ortopedia do Hospital CUF Descobertas, em Lisboa, durante este último ano.

As lesões por sobrecarga são as mais frequentes e atingem sobretudo os joelhos, os ombros, os punhos e a coluna. Dor femoropatelar, síndrome da banda iliotibial, fracturas de stress, tendinites e lombalgia são alguns dos quadros mais comuns e resultam, na maioria das vezes, de um desequilíbrio entre o volume e/ou intensidade da actividade física e a capacidade de recuperação das estruturas sujeitas ao esforço.

No entanto, também as lesões traumáticas, decorrentes de quedas ou torções, continuam a acontecer. Dentro destas, as roturas de ligamentos e as fracturas são as mais comuns e é fundamental que quando ocorrem, sejam avaliadas pelo ortopedista. O receio da deslocação às unidades hospitalares em tempo de pandemia, faz com que muitos se atrasem no diagnóstico destas lesões, arriscando um pior resultado no seu tratamento ou mesmo sequelas permanentes.

A outra preocupação relacionada com as mudanças dos hábitos desportivos está associada ao período que virá após o confinamento. Muitos dos que viram as suas rotinas desportivas interrompidas, sofreram inevitavelmente uma perda de massa muscular e uma redução da sua condição física. Com a reabertura dos ginásios e o regresso à prática das modalidades desportivas em grupo, os altos níveis de motivação, como que a querer recuperar tempo perdido, e o descondicionamento físico entretanto ocorrido, são dois ingredientes que somados levam a prever um aumento no número de lesões ortopédicas. A retoma da actividade desportiva deve, por isso, ser gradual e planeada, com foco na prevenção da lesão.

Nestes tempos de constante mudança, ficam alguns conselhos de sempre:

  • Aumentar a actividade física de forma gradual;
  • Adequar a modalidade desportiva ao nível de condição física individual;
  • Dedicar tempo para o aquecimento;
  • Realizar exercícios de flexibilidade e mobilidade articular;
  • Complementar o exercício com treino de fortalecimento muscular global;
  • Reeducação postural, treino de equilíbrio e fortalecimento do CORE;
  • Respeitar as horas necessárias para um sono reparador;
  • Não esquecer uma hidratação adequada e uma alimentação equilibrada;
  • Escolher calçado desportivo de boa qualidade;
  • Repousar entre treinos e evitar repetir o mesmo treino em dias seguidos;
  • Se sente dor no exercício, não force e “ouça” o seu corpo;
  • Se suspeita de uma lesão, não adie a ida ao médico.