Responsável admite relação entre vacina da AstraZeneca e tromboses, EMA não confirma

Numa declaração ao PÚBLICO, a EMA negou ter chegado a uma conclusão sobre o que causa os coágulos sanguíneos e diminuição de plaquetas, que motiva vários dias de reunião esta semana.

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Vacinação com a AstraZeneca em São Paulo Reuters/AMANDA PEROBELLI

Marco Cavaleri, responsável pela Estratégia de Vacinas na Agência Europeia de Medicamentos (EMA), reconheceu, em declarações ao jornal italiano Il Messaggero, que “é cada vez mais difícil afirmar que não existe uma relação de causa e efeito entre a toma da vacina da AstraZeneca e os casos raros de coágulos sanguíneos associados a um baixo número de plaquetas”.

No entanto, o que não conseguem ainda dizer médicos e cientistas, reunidos pela EMA a partir de hoje e até sexta-feira para discutir este assunto de farmacovigilância, ou vigilância dos efeitos dos medicamentos depois de estarem em uso, é qual é essa relação, qual o mecanismo através do qual a vacina provoca estes fenómenos tromboembólicos raros, que têm acontecido de forma esmagadora entre os menores de 55 anos – mas na Europa foi sobretudo nesta população que a vacina da AstraZeneca foi administrada, por causa das cautelas iniciais causadas pela falta de dados nos ensaios clínicos sobre o uso da vacina em pessoas mais velhas.

“Procuramos obter uma imagem clara do que se está a passar, para definir de forma precisa esta síndrome induzida pela vacinação. Entre os vacinados, há mais casos de tromboses venosas no seio cavernoso cerebral em pessoas mais jovens do que seria de esperar. Temos de dizer isto”, referiu Marco Cavaleri ao jornal italiano.

O PÚBLICO contactou a sede da EMA, em busca de uma reacção a estas declarações. Uma porta-voz da agência europeia apenas sublinhou que “o Comité de Avaliação do Risco de Farmacovigilância ainda não chegou a uma conclusão e a análise está neste momento a decorrer”. Espera-se uma decisão na quarta ou na quinta-feira, adiantou, que será comunicada através de uma conferência de imprensa.

O trabalho de avaliação “está longe de estar concluído”, reconheceu Marco Cavaleri. “Esta semana começaremos a ter conclusões preliminares, mas dificilmente chegaremos a dar indicações de limites de idade para a administração da vacina, como fizeram vários países”, avisa. Isto acontece porque a EMA é uma agência reguladora e precisariam de ter dados muito precisos “sobre a relação risco-benefício” para fazer uma tal recomendação. Esse papel, diz, poderá ficar para as agências de saúde pública nacionais, que “gerem as campanhas de vacinação e têm várias hipóteses à sua disposição, que podem usar como melhor entenderem.”

Dezenas de fenómenos tromboembólicos foram já relatados na Europa, com alguns a resultar em morte. No Reino Unido, soube-se nesta Páscoa, houve 30 casos e sete mortes num total de cerca de 18,1 milhões de doses administradas até 24 de Março. A 31 de Março, a EMA divulgou que tinham sido registados 62 casos (numa contagem feita até dia 22), entre 9,2 milhões de pessoas que tomaram uma dose da vacina da AstraZeneca na União Europeia e ainda na Islândia, Liechtenstein e Noruega, países que, com a União Europeia, fazem o Espaço Económico Europeu.

Até agora, a EMA sublinhou sempre que “não foi provada nenhuma relação causal com a vacina”, embora sem excluir a possibilidade de que esta venha a ser encontrada. Alguns mecanismos foram sugeridos, como trombocitopenia (redução das plaquetas) induzida pela toma do medicamento anticoagulante heparina, e a EMA deverá analisar todas essas contribuições durante esta semana.

A EMA reitera também a mensagem de que os benefícios da vacinação contra o vírus SARS-CoV-2 superam os eventuais riscos – o que Marco Cavaleri também confirma. “Mas vamos analisar mais em detalhe cada faixa etária. As mulheres jovens, que têm sido protagonistas destas tromboses, sofrem menos os efeitos da covid-19, devemos fazer uma avaliação de riscos-benefícios para elas. Mas sem esquecer que por vezes também acabam nos cuidados intensivos com covid-19 – é preciso um trabalho meticuloso para compreender se a relação riscos-benefícios é favorável em todas as idades”, disse o responsável da EMA nesta entrevista, citado pela agência noticiosa italiana Ansa.

A Organização Mundial de Saúde diz que está também a analisar os dados mais recentes, tal como a EMA e outras agências reguladoras, mas até agora não vê motivos para mudar de opinião sobre a vacina da AstraZeneca, diz a Reuters. Os benefícios continuam a superar os riscos.