Entre os pingos da China

É incompreensível a incapacidade do governo português para perceber estes ventos na avaliação dos temas que lhe dizem respeito direto, como a questão de Macau.

Com o foco na dependência excessiva do capital chinês na nossa economia, o embaixador americano em Portugal afirmava há seis meses que chegaria o momento de o executivo português ter de escolher entre os aliados americanos e os chineses.

Pondo de parte alguma da forma com que o aviso foi proferido e que tanta celeuma gerou, escrevi na altura que o relevante era olhar para o seu conteúdo, que fazia antever uma pressão diplomática ao nosso país e a outros países europeus durante os próximos anos. Sem Trump e caso Biden fosse eleito, essa pressão tinha todas as condições para ser bem-sucedida.

Daí aos dias de hoje, sempre foi expectável que surgissem outras exigências por parte da União Europeia aos Estados-membros. Em nome de uma certa afirmação democrática, da aliança transatlântica e do próprio mercado concorrencial.

Na última semana, os EUA, secundados pelo Canada e o Reino Unido, classificaram o que se está a passar em Xinjiang como um genocídio. Após um longo período de negociações e ameaças sem efeito prático ao executivo liderado por Xi Jinping, acabaram por aplicar sanções conjuntas, afetando as trocas comerciais com a região. Por sua vez, a União Europeia, ignorando uma futura reação do regime chinês, sancionou os responsáveis diretos pela repressão da minoria uigure naquela região. Poucos dias depois, seguiram-se marcas como a Nike, Adidas, Burberry e Zara, que lançaram uma campanha global, exigindo aos seus fornecedores que deixassem de comprar algodão de Xinjiang. Entre várias alegações, destaca-se a necessidade de se distanciarem das políticas de trabalho forçado.

Tudo isto interessa no geral, mas deveria interessar particularmente ao governo português pela questão da repressão em Macau e dos despedimentos com justa causa a quem divulgar notícias incómodas ou “contrárias” às políticas de Pequim.

Da mesma forma que não se pode negar a relevância do peso da economia e indústria da segunda maior potência global no mundo, é impossível fugir ao desgaste por parte de muitos governos ocidentais e asiáticos com o regime chinês e a forma como participa no comércio e na economia mundial. Para lá da tentativa do silenciamento da realidade no surgimento e gestão da pandemia, as autoridades chinesas mantiveram uma linha de política externa agressiva e repressiva onde casos como estes e outros, como Taiwan e Hong Kong, perduram de forma lastimável. Quando o novo executivo americano de Biden faz frente ao regime chinês de modo igualmente irredutível àquele do sempre descredibilizado Trump, fá-lo também através de uma outra forma totalmente distinta no alcance. Procurando os aliados e reiterando o peso das organizações multilaterais. Com sanções e sem concessões. Não é difícil imaginar que este modus operandi seja mais bem-sucedido e que recolha uma maior adesão nas políticas que muitas democracias sociais-democratas e liberais pelo mundo fora têm com o gigante asiático.

É nesse sentido que se torna incompreensível a incapacidade do governo português para perceber estes ventos na avaliação dos temas que lhe dizem respeito direto, como a questão macaense. Tão pouco os aproveita, julgando sempre que a neutralidade é um eterno bem maior nas relações internacionais e no mundo de hoje.

Nem é preciso voltar às declarações do embaixador americano de há seis meses para perceber que também aqui, e mantendo-nos iguais a ontem, passar entre os pingos da chuva com a China é meio caminho para nos encharcarmos hoje e amanhã.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico