No Brasil o ódio é às claras

A lista dos símbolos do ódio está em actualização permanente. O “ok” feito com a mão é um gesto simpático, mas passou a ser sinal de adesão a ideais racistas. Alguém acredita que o genial Filipe Martins estava distraído?

Corre na Internet a captura de ecrã feita a partir do vídeo do Senado brasileiro que mostra Filipe Martins a fazer um gesto peculiar com os dedos.

Martins é jovem, mas sabe muitas coisas. Por isso é Assessor Especial para Assuntos Internacionais do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Quando fez o “ok” invertido com os dedos e foi acusado de difundir um símbolo de ódio, mostrou-se ofendido e disse que só estava a “ajeitar o paletó”.

Mas é razoável pensar que Martins sabe que a inversão do símbolo gestual do “ok” — juntar o polegar ao indicador e deixar os outros dedos soltos — foi adoptada pela extrema-direita mundial como código de provocação e afirmação dos ideais da supremacia branca. É razoável pensar que Martins sabe que o “ok” invertido é um dos 250 símbolos de ódio mais comuns da era digital. E se Martins gosta das novas redes: tem 371 mil seguidores no Twitter, 63 mil no Facebook e 58 mil no Instagram.

Tão atento ao que se passa nas redes, é razoável pensar que ouviu falar da investigação que a Academia Militar norte-americana de West Point fez em Setembro de 2019 sobre o que levara três cadetes a fazer “ok” invertidos para as câmaras de televisão. Foi notícia em todo o mundo. Também deve ter visto, pouco antes, a fotografia do serial killer que matou 50 pessoas em duas mesquitas de Christchurch, na Nova Zelândia, a fazer o “ok” invertido quando entrou algemado no tribunal.

Deve saber que a Liga Anti-Difamação, influente associação judaica com sede nos EUA, mantém uma base de dados dos símbolos de ódio em permanente actualização e que há dois anos incluiu o “ok” invertido na lista. Martins diz até que é judeu — fica para outro coffee break — e ainda ontem o embaixador de Israel em Brasília saiu em sua defesa pública.

Tal como é difícil acreditar que desconhece que o “ok” invertido se tornou um gesto tóxico, é fácil imaginar que foi ele quem brifou Bolsonaro sobre o tema. Todos vimos como em Fevereiro de 2020 o Presidente se afastou de um fã que fez uma selfie à sua frente. No vídeo, não se ouve bem, mas vê-se bem: mal percebe que o homem fez um “ok” invertido, Bolsonaro afasta-se com ar irritado e dá instruções secas aos seguranças.

Se nós sabemos isto tudo pelos jornais, é razoável que Filipe Martins saiba um pouco mais sobre discurso do ódio e o seu impacto. Chegou ao Palácio do Planalto com 30 anos e rapidamente o seu escritório ficou conhecido como “gabinete do ódio”. Orgulhoso, divulgou mensagens e fotografias dos seus jantares com Steve Bannon, antigo estratega de Donald Trump. De discípulo de Olavo de Carvalho, astrólogo e guru da família Bolsonaro, passou a ideólogo da política externa do Brasil. É um caso exemplar da ideia que a académica Ana Kiffer descreve no livro (com Gabriel Giorgi) Ódios políticos e política do ódio: os que defendem o “ódio à política” são os que fazem as “políticas do ódio”.

Mais uma vez, a crise veio e Bolsonaro protegeu-o: a 24 de Março, Martins fez o estranho gesto com os dedos no Senado; a 29 de Março o ministro dos Negócios Estrangeiros, Ernesto Araújo, demitiu-se; e a 31 de Março, o Senado aprovou um “voto de censura” contra Martins. O texto dos senadores é claro: “O senhor Filipe Martins comportou-se de forma completamente inadequada, desrespeitosa e quiçá criminosa enquanto o presidente desta Casa, o senador Rodrigo Pacheco, proferia seu discurso de abertura. Tal gestual, capturado pelas câmeras [sic] da TV Senado e transmitido para todo o mundo, remonta à sigla WP, que significa ‘White Power’ ou, em português, ‘Poder Branco’. Tal gesto tem sido amplamente replicado por membros de grupos de extrema direita e simpatizantes do movimento supremacista branco em protestos e redes sociais.”

Pormenor: Martins sabia que ​estava na televisão pois estava numa sessão plenária sobre a covid-19 e sentado atrás do presidente do Senado que naquele momento era o único orador.

A única coisa boa desta triste história: vamos deixar de ouvir Araújo, que chefiou a diplomacia do Brasil nos últimos dois anos, tem 30 de carreira no Itamaraty e tratava Martins por “professor”. Quando tomou posse, a jornalista Consuelo Dieguez publicou um perfil do ministro na revista Piauí. É aí que descreve as ideias “raivosamente anti-iluministas” do diplomata. Definição perfeita. No Brasil de Bolsonaro, só há luzes para uma coisa: iluminar o ódio.