(Re)socializações – para quando regressarmos

Continuamos a acreditar que um futuro chegará na dissipação do Nevoeiro e resta-nos, por isso, duas questões a reflectir: a que mundo chegaremos e que sonhos levaremos.

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“À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Sabemos a que autoria pertence este verso tão conhecido e tantas vezes pronunciado. Através dele, Fernando Pessoa, um dos mais ilustres poetas da língua portuguesa, na sua versão heteronímica Álvaro de Campos, consolida a ambivalência do ser: depois do nada, podemos almejar o tudo. Penso que podemos transladar esta visão para o momento em que vivemos. Agora, estamos no cerne de uma pandemia na qual o sofrimento é pesadíssimo e multicausal, os efeitos económicos intensos e as consequências nas dinâmicas sociais profundas. No entanto, continuamos a acreditar que um futuro chegará na dissipação do Nevoeiro e resta-nos, por isso, duas questões a reflectir: a que mundo chegaremos e que sonhos levaremos.

Recentemente, por sugestão de um dos meus amigos mais próximos, comecei a acompanhar uma série de seu nome The Last Man on Earth. Estreada na Fox em 2015 e com conclusão três anos depois ao fim de quatro temporadas, esta produção quase poderia ser uma premonição daquilo que há pouco mais de um ano estamos a enfrentar. Na série, as poucas personagens que já tive oportunidade de identificar encontram-se em 2020, após um vírus ter eliminado toda a restante população mundial. Curioso, não? Conforme outras pessoas vão aparecendo, a comunidade, cuja estrutura incorpora uma instabilidade e os relacionamentos são formados por um grau de desconfiança e conflito ainda elevado, tem de aprender a gerir expectativas, esforços e desafios que se levantam. Ora, é exactamente esta reaprendizagem das socializações que se revelará como uma necessidade quando finalmente a pandemia erguer a bandeira branca.

Que projectos de vida teremos para essa altura? Como dialogarão eles e se conciliarão perante um organização societal a reconstruir? Qual o espaço e o significado dos nossos valores e das nossas interpelações éticas perante um mundo que, como descreveu o professor em Ciências da Educação Rui Trindade (2012: 34), continua a ser marcado pela “incerteza, por contradições e por tensões que constantemente nos obrigam a repensar o sentido das nossas acções e das acções protagonizadas pelos outros”, senão ainda mais vincado por elas? De que forma se constituirá a relação entre a vida pessoal e a vida comunitária?

Para isto, como sabido, não existe nenhuma solução milagrosa. No entanto, proponho-me a empregar, como uma possível orientação das nossas futuras vivências, uma perspectiva que, através de vários/as outros/as autores/as, a socióloga britânica Ruth Lister (2007), num artigo chamado Inclusive Citizenship: Realizing the Potential, acciona e tem por base quatro valores:

  • Justiça: compreensão dos momentos em que é justo que as pessoas sejam tratadas de forma igual e outros tantos em que é justo que elas sejam tratadas de modo diferente;
  • Reconhecimento: quer do valor intrínseco humano, quer das suas múltiplas diferenças;
  • Autodeterminação: relacionada com a possibilidade de as pessoas terem um determinado controlo nas e das suas vidas;
  • Solidariedade: sentimento de pertença e de identificação com os outros para reivindicações colectivas.

A não menção de outros princípios ou valores em nada corresponde ao seu menosprezo; porém, considero que estes quatro são heurísticos, isto é, úteis e práticos para nos guiarem rumo a relações sociais com mais sentido. O pilar da justiça permite-nos contextualizar e significar as situações; o do reconhecimento articula, sem branquear, a universalidade dos direitos humanos com as expressões de diversidade; o da autodeterminação recupera a confiança e ilumina-a; e a solidariedade faz-nos crer na importância da empatia e dos projectos comuns.

Espero que sejamos capazes de criar um devir de sentido com potencialidades de reinterpretação das experiências e de um novo desenvolvimento físico, emocional e social. As nossas sobrevivência e felicidade dependem da solidez destes nossos empreendimentos.