Não vos mataram, semearam-vos

45 anos depois da bomba espalhar a morte no Marão, a extrema-direita é a erva daninha que ameaça infestar o país com as suas ideias reacionárias, o revivalismo colonial, o saudosismo do Estado Novo, a violência racista e xenófoba.

Há 45 anos o país fazia-se pleno. A democracia, filha da revolução, foi firmada nas linhas da Constituição da República Portuguesa recém aprovada. Um novo Portugal se escrevia no contrato social supremo, apontando à igualdade de todos, onde a saúde e a educação se fizeram direitos universais, e o horizonte de uma sociedade socialista permanece até hoje. Um dia radioso que teve uma noite tão sangrenta.

Havia quem rejeitasse o caminho da liberdade, negasse a república ou a democracia, quem odiava a Constituição e tudo o que ela significava pois o que queria era voltar a 24 de abril de 1974. Os vencidos da revolução ainda conspiravam e espalhavam o terror. Assim aconteceu no quilómetro 71 da estrada que leva a Vila Real, nessa noite a morte saiu à rua.

O padre Max ia ao volante, ao seu lado Maria de Lurdes. Regressavam de mais uma sessão de alfabetização de camponeses, ensinavam “a ler e a escrever” no país que a ditadura deixou analfabeto. Tentavam resgatar os jovens do destino que tinha sido o de tantas gerações, perdidas na pobreza, ignorância ou alcoolismo. Era uma militância, a dedicação que levava à letra a palavra pregada - “de nada vale falar do bem se não se fizer o bem”. E era o bem que eles faziam, que os trazia do lugar da Cumeeira de regresso a Vila Real, quando o mal apareceu à traição. Uma bomba covarde explodiu o carro, tirou-lhes a vida. Maria de Lurdes morreu de imediato, o padre Max faleceu horas depois. Foi o primeiro assassinato político depois de 25 de abril de 1974.

Maria de Lurdes era estudante em Vila Real, filha de emigrantes em França, empenhada na luta estudantil, militante da União de Estudantes pela Democracia Popular (UEDP). O padre Max era candidato independente nas listas da UDP por Vila Real nas eleições para a Assembleia da República que se realizariam no 25 de Abril seguinte, defensor de uma convergência entre marxistas, cristãos e democratas de esquerda - partidário da unidade entre todas as correntes emancipatórias da humanidade e confiante de que o sacerdócio se faz pleno. Ambos se levantavam em nome da recém criada Constituição e isso ofendia a extrema-direita que, mesmo tendo passado quase dois anos da revolução, ainda se julgava senhora daquela região.

A justiça não encontrou culpados do hediondo assassinato, infiltrados da extrema-direita nas entidades que investigaram o crime asseguraram a destruição de provas e o boicote às investigações. A impunidade tem a marca dessa conivência, mas foi um crime que lhes levou a vida. Mesmo assim, foi reconhecido em Tribunal que se tratou de um atentado organizado pelo MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal). Esta organização de extrema direita, criada por António Spínola e Alpoim Calvão, foi responsável por uma onda de violência nos anos de 1975 e 1976, semeando o medo com atos terroristas, ações revanchistas com o 25 de abril. Negaram-lhes a justiça, garantimos-lhes a memória e dizemos que são maiores do que a morte.

45 anos depois da bomba espalhar a morte no Marão, a extrema-direita é a erva daninha que ameaça infestar o país com as suas ideias reacionárias, o revivalismo colonial, o saudosismo do Estado Novo, a violência racista e xenófoba. A história exige-nos a defesa dessa barreira constitucional que não abre a porta aos herdeiros do MDLP, não os torna avalistas de um qualquer governo. No aniversário da Constituição devemos-lhe fidelidade e o combate à intolerância.

A despedida do padre Max e de Maria de Lurdes foi emotiva, marcada pela população enlutada que em massa saiu à rua. No meio da multidão um lençol branco firmava o sentimento “Não vos mataram, semearam-vos”. A força e a certeza que os ideais pelos quais deram a vida são os mesmos pelos quais continuaremos a lutar: liberdade, democracia, igualdade, tolerância e solidariedade.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico