Prognóstico sobre a evolução da vida democrática em Portugal

A qualidade da nossa democracia vai depender muito do sucesso dos esforços para criarmos uma economia mais robusta, mais produtiva e mais virada para o futuro.

Face à crise sanitária, económica e social desencadeada pela pandemia de covid-19, parece ser altura de começar a fazer um balanço das falhas da governação e do futuro imediato da democracia portuguesa no pós-pandemia.

Na realidade, verificámos que os decisores políticos (não só em Portugal) procuraram desde o início escudar-se na opinião de epidemiologistas, de médicos de várias especialidades e de cientistas para legitimar a redução das liberdades públicas e privadas que teve e tem lugar. Como, sobretudo nos primeiros tempos da pandemia, o conhecimento médico-científico sobre o novo vírus era pouco profundo e falível, criou-se como que uma espécie de Linha Maginot de defesa dos governantes, uma espécie de “ditadura sanitária”, ou de “cesarismo científico”, alimentado pelo compreensível medo de contaminações e pelos dados diariamente publicados pela DGS.

Hoje são manifestos os erros de cálculo e os erros de gestão da pandemia e do sistema de saúde em geral que se cometeram em Portugal. Só que eles são atribuídos a falhas dos peritos e por isso a responsabilidade política é totalmente ignorada, nomeadamente por boa parte dos meios de comunicação.

Muitas vezes a discussão pareceu polarizar-se entre a preservação da saúde coletiva, naturalmente um bem maior, e a defesa da economia, das empresas produtivas, dos postos de trabalho e dos rendimentos das pessoas. Ora este dilema decorre de cálculos de muito curto prazo e de uma gestão à vista da pandemia, sem que se refletisse suficientemente sobre o que fazer no pós-covid. Ora a atividade económica e o rendimento que gera determinam largamente a capacidade de desenvolvimento e de realização de cada pessoa e de cada família e por isso a sua fragilização através de lockdowns extensos e sucessivamente renovados é obviamente um erro.

Mas para que essa compatibilidade na gestão da dupla crise sanitária e económico-social pudesse ter lugar, desde fevereiro de 2020, deveríamos ter colocado controlos sanitários nas fronteiras; devíamos ter imposto de imediato o uso de máscaras nos espaços públicos; deveríamos ter reforçado a capacidade de resposta do sistema de saúde público, em conjunto com o sector privado - o que só percebemos que (ainda) não tinha acontecido quando, em janeiro e princípios de fevereiro deste ano, nos confrontámos com a tremenda tragédia humanitária que levou os serviços de urgência a rebentarem pelas costuras e a cenas chocantes nos hospitais, com centenas de mortos em cada dia.

Depois veio o arranque tardio da campanha de vacinação, a sua gestão errática, a constante mudança de critérios. E a insuficiência no abastecimento de vacinas, que já será irrecuperável.

As medidas de apoio às empresas e às pessoas foram sendo anunciadas com pompa e circunstância, e amplificadas nas televisões, cada vez mais complacentes com o hemisfério esquerdo do espectro político, mas foram executadas a conta gotas.

Quando se compara Portugal com países como a Coreia do Sul, a Nova Zelândia, Taiwan ou Israel, ou mesmo com a Alemanha e os países bálticos, que conseguiram simultaneamente combater com sucesso a pandemia, manter o essencial das liberdades públicas e salvaguardar a atividade económica, compreendemos que algo correu mal em Portugal.

No nosso país, os sucessivos confinamentos deixarão tremendas sequelas no tecido empresarial e na população, desde o encerramento definitivo de muitas empresas até ao aumento das desigualdades e do sofrimento, para não referir a degradação do estado de saúde, física e psíquica, de uma enorme parcela do povo português. E também o drama pessoal, que em muitos casos ficará por escrever, de trabalhadores independentes, de artistas, de pequenos comerciantes e artesãos, além do enorme sacrifício de uma juventude confinada e de uma “quarta idade” atingida em cheio pela pandemia nos lares de idosos.

É necessário melhorar drasticamente a eficácia do sector público e incentivar a sério a economia privada, agora atingida por um verdadeiro tsunami. A qualidade da nossa democracia vai depender muito do sucesso dos esforços para criarmos uma economia mais robusta, mais produtiva, bem inserida nas correntes do comércio internacional e mais virada para o futuro.

Um dia far-se-á o inventário do que falhou, mas mesmo então os governantes de hoje invocarão a sua irresponsabilidade política acobertada pela opinião dos peritos e pelo parêntesis da ditadura sanitária!

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico