Guimarães terá 51 quilómetros em ecovias para caminhar, correr e pedalar junto dos rios Ave e Selho

Proposta para a criação da ecovia do Selho foi apresentada na segunda-feira. O trajecto, de 22 quilómetros, junta-se à já anunciada ecovia do Ave. Percursos unir-se-ão na zona onde o rio Selho encontra o Ave, dando origem a um parque linear. Também serão criados caminhos para se conhecer o património histórico do concelho.

Foto

Na Senhora do Monte, em Gonça, Guimarães, nasce um rio que, ao longo de 25 quilómetros, banha uma série de freguesias do concelho — e empresta o nome a três. O Selho, assim se chama ele, corre esse percurso para desaguar em Serzedelo, onde encontra o Ave. Futuramente, será possível correr (ou pedalar) ao mesmo tempo que se acompanha o desenrolar deste rio na paisagem: a Câmara Municipal de Guimarães apresentou, esta segunda-feira, uma proposta para a criação da ecovia do Selho, que terá 22 quilómetros de extensão e que percorrerá 14 freguesias do município. A estes juntam-se os já anunciados 34 quilómetros (29 dos quais em território vimaranense) da ecovia do Ave, apresentada em Janeiro último.

E se os dois cursos de água se juntam num abraço líquido eterno, também as duas ecovias estarão conectadas — em Serzedelo, claro, “onde já existe uma ligação” entre ambos, como lembra Carlos Ribeiro, director do Laboratório da Paisagem. Os traçados destes futuros percursos foram desenhados pela unidade de investigação e educação ambiental vimaranense e pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Com esse ponto de ligação (e outros dois, a construir), os percursos integrantes destas vias pedonais e cicláveis criarão um extenso parque linear.

Citado em comunicado de imprensa da autarquia, o presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Domingos Bragança, vê a ligação dos dois trajectos como “um passo importante para a população voltar a viver o rio”. É que grande parte dos troços que constituem as ecovias já faz parte da paisagem natural há muito: “Um dos critérios foi encontrar percursos, rurais ou de pé posto, já existentes. Caso isso não acontecesse, fomos procurar a melhor solução para criar essa ligação”, explica Frederico Meireles, da UTAD.

Na verdade, pouco se pode intervir: quase todo o traçado integra o Nível I da Estrutura Ecológica do concelho. Dessa forma, a edificação nessas áreas está sujeita a um máximo condicionamento. “A intervenção será muito pontual e não há obras extensivas ou de grande alteração”, assegura. O também professor de Arquitectura Paisagista na academia transmontana salienta que “tudo foi visto ao pormenor, através de visitas de campo”, tendo-se sempre em conta “o impacto [que a criação das ecovias e dos pontos de ligação] iria ter na estrutura da vegetação e solo nas zonas de margem com o rio”.

Caminhos para conhecer espécies e património

Para além disso, o desenho do traçado priorizou os pontos de acesso “já existentes”. Ainda que algumas freguesias do concelho “tenham mais confronto com o rio e que, por isso, terão mais extensão de ecovia”, tentou-se que “a distribuição do percurso fosse equitativa, salvo se houvesse questões ecológicas”. Daí que a apresentação da proposta para a ecovia do Selho tenha contado com as sugestões dos presidentes das juntas de freguesia por onde o rio passa: “O desenho vai ser revisto e logo após esse período será feita a primeira fase, a das limpezas, mas quando houver permissão.”

Mesmo assim, partes do traçado já se livraram de espécies invasoras como as mimosas, as silvas e as acácias — e “bastou isso” para que algumas pessoas voltassem aos caminhos que correm com o rio. Por outro lado, essa limpeza já arrancou na ecovia do Ave, mas foi interrompida “por causa da nidificação dos animais”.  

“A nível estético, importou oferecer às pessoas um percurso aprazível de natureza mais selvagem”, acrescenta Frederico Meireles. Nas futuras caminhadas e pedaladas pelas margens do Ave e do Selho existirá “uma rede acessória” cujo objectivo “é valorizar o património cultural e histórico de cada freguesia”. Isso quer dizer que se poderá “sair do tronco principal do percurso e procurar outro caminho para ir ao encontro desses elementos”. Para facilitar esta descoberta, será criada sinalética para indicar onde se situam as igrejas, pelourinhos, açudes ou moinhos das freguesias.

Carlos Ribeiro indica ainda que as ecovias contemplarão “equipamentos informativos, desportivos e de observação”, mas sempre numa lógica de equilíbrio. “Há zonas de presença massiva de biodiversidade que importa dar a conhecer, mas, ao mesmo tempo, é preciso garantir a protecção destas espécies”, justifica. Através destes percursos, os vimaranenses (e não só) poderão dar de caras com animais como a garça-real, o corvo-marinho-de-faces-brancas ou o tritão-de-ventre-laranja. O quadro fica completo com a flora rica que por ali se encontra, que inclui salgueiros, choupos, bétulas e lírios-amarelos-dos-pântanos, por exemplo.