Agravamento da pandemia na América Latina obriga Chile a adiar eleições

Com o Brasil na dianteira, a América Latina está a sofrer um forte impacto de uma nova vaga da pandemia da covid-19 enquanto o processo de vacinação vai marcando passo.

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O Chile decretou um novo confinamento nacional, deixando as ruas de Santiago vazias no último fim-de-semana Alberto Valdés / EPA

Em vários países da América Latina – que no seu todo contabiliza mais de 55 milhões de infecções pelo vírus SARS-CoV-2, segundo a Universidade Johns Hopkins – voltaram a ser impostas medidas de confinamento, algumas mais severas do que noutras fases da crise sanitária. Até mesmo países que eram vistos como casos de sucesso, como o Chile, estão a registar novos picos preocupantes.

O agravamento da situação no Chile, que no domingo contabilizou mais de sete mil infecções, levou o Presidente Sebastián Piñera a pedir o adiamento das eleições gerais marcadas para 10 e 11 de Abril. O chefe de Estado propôs uma reforma constitucional que deverá ser aprovada já esta segunda-feira para que a alteração no calendário eleitoral possa ser realizada, diz o El País.

“Se, como tantas outras, esta foi uma decisão muito difícil, devemos tomá-la e temos a convicção plena de que é o melhor para o Chile e para os chilenos”, afirmou Piñera. Em causa estão as eleições para os governos das províncias, para as autarquias – que já tinham sido adiadas no ano passado – e para a Assembleia Constituinte encarregada de elaborar a nova Constituição.

A subida do número de casos no Chile está a pressionar fortemente o sistema hospitalar, que dispõe apenas de 160 camas em unidades de cuidados intensivos. Para conter a escalada, o Governo já tinha aprovado uma nova quarentena nacional, em que os cidadãos apenas podem sair de suas casas para actividades essenciais.

O Chile parece ser vítima do próprio sucesso, uma vez que a elevada taxa de vacinação – estima-se que 40% da população já tenha recebido pelo menos uma dose da vacina contra a covid-19 – terá criado uma falsa sensação de segurança.

“Depois da distribuição de vacinas há quem deixe de cumprir medidas como o distanciamento físico, a higiene das mãos, a ventilação ou evitar lugares concorridos, e tudo isso tem de continuar ao lado da vacinação”, disse na semana passada a dirigente da Organização Mundial de Saúde, Maria Van Kerkhove, abordando a situação no Chile.

Países em apuros

No México, o Governo reconheceu que a dimensão da catástrofe causada pela pandemia é maior do que o que se pensava. Um relatório revelado no fim-de-semana concluiu que o número de óbitos reais causados pela covid-19 é 60% maior do que o que tem sido reportado oficialmente, o que faz com que tenham morrido mais de 322 mil mexicanos desde o início da crise.

A revelação foi mitigada pela notícia do acordo alcançado com os EUA para o envio de 2,7 milhões de vacinas para o país vizinho. As primeiras 1,5 milhões de doses chegaram esta segunda-feira e espera-se o resto a 1 de Abril. A vacinação no México tem sido afectada pela escassez de vacinas, que teve de interromper a imunização dos idosos com mais de 60 anos, e espera agora dar um novo impulso ao processo.

As autoridades mexicanas temem uma nova subida dos contágios por conta das deslocações e celebrações da Semana Santa, que têm muita tradição no país. O Governo emitiu recomendações para que a Páscoa não seja celebrada em grupos com mais de cinco pessoas, segundo a agência Efe.

No Brasil, o mês de Março, sem ainda ter terminado, já é o pior mês desde o início da pandemia. Foram contabilizadas 58 mil mortes desde 1 de Março, o que deixa um total acumulado superior a 300 mil óbitos. Só na última semana, o Brasil contabilizou mais mortes do que os EUA, o México, a Itália e a Rússia combinados.

A tendência mais recente não permite antever um horizonte para uma inversão do agravamento, especialmente tendo em conta a enorme pressão sobre os sistemas hospitalares em todos os estados. Em São Paulo, por exemplo, mais de 500 doentes esperavam por um lugar numa unidade de cuidados intensivos na última sexta-feira, diz o El País Brasil.

Tal como no México, a grande esperança do Brasil para travar a progressão da pandemia está na vacinação. Esta segunda-feira, o Instituto Butantan entregou um novo lote com cinco milhões de vacinas que serão agora distribuídas pelos estados.

Na Venezuela, onde os dados sobre a covid-19 divulgados pelo Governo têm sido questionados, o Presidente Nicolás Maduro disse estar preparado para adquirir vacinas a troco de petróleo, denunciando o congelamento de fundos de dinheiro público por governos estrangeiros que está a dificultar a compra de doses.