A estrelícia

Todas as manhãs passávamos pelas mesmas árvores que ganhavam um novo sopro de vida na Primavera e a conversa também ganhava outro fôlego.

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"Prefiro escolher a vida que se faz de coisas quase impronunciáveis a conseguir relatá-la em factos" Mag Rodrigues

Todas as manhãs íamos a pé para a escola. Isso, sem querer, levava-me ao reencontro da minha infância em que tudo se fazia numa curta distância a tempo de voltarmos quase sem darmos pela ausência uns dos outros. Talvez essa seja a grande diferença com os dias de hoje: estranhamos o tempo que nos separa. Estranhamos mais do que nunca a distância. Os minutos que são hoje horas, dias, e já lá vão meses... Há meses que não regressamos uns aos outros.

Todas as manhãs passávamos pelas mesmas árvores que ganhavam um novo sopro de vida na Primavera e a conversa também ganhava outro fôlego: tirávamos os olhos do chão erguendo-os para ver as árvores renascidas e aqui lembro-me sempre do tal homem que dizia que viajávamos pelo mundo inteiro mas nunca tínhamos olhado para os telhados da nossa rua. Passei a vê-los. E às árvores. E até à vida dentro das casas. E mesmo aos que delas saíam todos os dias. Um anonimato que interiorizámos e sem querer precisamos para dar sentido aos dias.

A minha filha ganhava-me todos os dias, e eu a ela, nesse caminho para a escola. Nessa distância em que fazíamos um resumo da vida da véspera. Se todos os dias coleccionássemos o que ouvimos do dia anterior, ganhávamos inteiramente os dias. O que me assusta é quando passamos por eles, vazios.

Um dia, num regresso que já não era manhã, cruzámo-nos com uma mulher que eu já tinha visto e percebido que seria alguém sem casa. São as pessoas cuja vida cabe num saco: as mais livres dirão alguns, as mais tristes pensarão outros. Eu só lhe vi os olhos marítimos onde podia descobrir corais, o fundo do mar, a vida subaquática que só os livros contam. Os tesouros que só existiam na literatura. Eram incrivelmente azuis os olhos dela e o sol já lhe tinha dado outro tom à pele. Uma mulher bonita com um saco só. Um saco cheio de histórias.

Vínhamos da escola e ela passou rente a nós. Demorou-se ali junto do caixote do lixo. Um segundo só a mais. E eu pressenti, intuí, temi que talvez procurasse mais do que o passeio da tarde. Recuei na chegada a casa cuja porta já via e disse: “Posso ir lá acima e trazer algumas coisas?” Não nomeei nada. Ela sorriu com os olhos transparentes em maré vasa a deixar ver tudo com clareza e disse: “Sim.”

Corremos escadas acima e trouxemos tudo o que podíamos para lhe oferecer. Algo que já não caberia num saco.

Quando descemos, descobrimos que nesse impulso sôfrego de querer ajudar, a chave de casa tinha ficado lá dentro e nós do lado de fora. Não recuámos. Quando chegámos junto dela, ela tinha uma estrelícia para nos entregar. Foi um truque de magia esse momento em que lhe estendemos o nosso pequeno saco e ela nos ofereceu uma flor como se lhe nascesse das mãos. Sorrimos as três e despedimo-nos.

Minutos depois estávamos, eu e a minha filha, dentro do táxi a caminho de apanhar as chaves de casa com uma porta que facilmente se abriria. A minha filha teria 9 anos, talvez. Disse-me: “Estamos na mesma situação daquela senhora. Ficámos sem casa.” A frase e o momento estão preservados com nitidez até agora. Tal como os olhos subaquáticos daquela mulher que nos estendeu uma flor que lhe nasceu dos dedos.

Quando pudemos voltar a entrar em casa, pus a estrelícia numa jarra e ficou meses junto à janela. Era impossível vê-la e não me lembrar da magia de um momento onde não precisámos de nomear nomes ou agradecimentos para saber que o que ali se tinha vivido tinha sido mágico.

Lembro-me sempre deste episódio. Lembro-me mais agora que a Primavera chegou e as árvores voltam a levantar-me o olhar e plantam-me a atenção como quem procura a magia dos pequenos instantes.

Prefiro escolher a vida que se faz de coisas quase impronunciáveis a conseguir relatá-la em factos.

A soma da véspera dos dias não me devolveria eco nenhum se não procurasse essa magia.