Médico da Operación Puerto denuncia medalhados olímpicos dopados em 1992

Fuentes, que não avançou os nomes dos atletas, explicou que aprendeu técnicas de fuga aos controlos anti-doping em viagens pela Europa de Leste, mas garantiu que, quando os produtos que usava eram proibidos, os deixava e... procurava outros novos.

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Fuentes à entrada de um tribunal, em 2013 Reuters/SERGIO PEREZ

Eufemiano Fuentes, médico implicado no escândalo mundial de doping conhecido como Operación Puerto, garante que houve atletas medalhados dopados nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992.

Fuentes deu neste domingo uma entrevista ao programa espanhol Lo de Évole – a que garante ser a última que dará – e, apesar de, globalmente, ter revelado pouco, contou que ensinou atletas e clubes a utilizarem substâncias de melhoramento do rendimento desportivo à margem dos controlos anti-doping.

“Se eu contasse tudo, alguma medalha [de Barcelona 92] iria cair. Eles não queriam problemas, não queriam [testes] positivos, mas queriam resultados”, contou, sem apontar, porém, os nomes dos atletas dopados em 1992 – justificou-o por “sigilo profissional”.

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Fuentes, que trabalhou com atletas do atletismo, ciclismo e futebol, chegou a ser detido e condenado a uma pena de prisão pelos esquemas de dopagem que envolviam transfusões de sangue, EPO, esteróides, hormonas de crescimento, entre outros.

Sobre o ciclismo e o futebol em particular, o médico deixou uma reflexão sobre o esforço que é pedido aos atletas. “Fiz batota e, em troca, trouxe um benefício a atletas que já são castigados o suficiente com o seu trabalho. Porque não dizem à Volta a França para fazer um dia suave em vez de uma etapa de 200 quilómetros com sete montanhas? No futebol, jogam quarta-feira e domingo. Essa exigência é dura”.

O clínico assume que cometeu delitos, mas não foi o único. “Fiz asneiras e não conheço ninguém que não as tenha feito. Se queres melhorar no desporto, tens de ir buscar vantagens que, ao início, não são conhecidas, mas que depois se aceitam, porque são de uso generalizado. O que leva o desportista a dopar-se é a ambição. Se a vê perto [a vitória], entra na tentação de fazer algo mais”.

Fuentes explicou ainda que aprendeu técnicas de fuga aos controlos anti-doping em viagens pela Europa de Leste, mas garantiu que, quando os produtos que usava eram proibidos, os deixava e... procurava outros novos. E detalhou: “Mais do que fármacos, eram soros que usávamos para atrasar a sensação de fadiga”.

O médico contou, por fim, que recebia os pagamentos dos clubes, atletas e federações através de um testa-de-ferro que não era do mundo do desporto.