Pôr o Moedas a funcionar?!

Na passada quarta-feira, José Honório, ex-administrador do BES e do Novo Banco deu a conhecer que, em meados de maio de 2014, acompanhou Ricardo Salgado a uma reunião com Carlos Moedas.

“O Moedas, o Moedas! Eu punha já o Moedas a funcionar.”

Foi esta a sugestão de José Manuel Espírito Santo numa reunião do Conselho Superior do Grupo Espírito Santo (GES), um mês e meio antes da detenção de Ricardo Salgado (julho de 2014).

O ex-presidente do BES ligou a Carlos Moedas. Pediu ajuda para interceder junto do presidente da Caixa Geral de Depósitos, de forma a obter uma linha de financiamento para a ESI no valor de 500 a 750 milhões de euros. Carlos Moedas terá dito que iria falar com o presidente da Caixa e que iria colocar o seu amigo ministro da Justiça do Luxemburgo em contacto com o GES, tendo em conta que a origem do problema derivava de um inquérito aberto pela procuradoria do Luxemburgo a três empresas do GES.

Na quarta-feira, José Honório, ex-administrador do BES e do Novo Banco, deu a conhecer que, em meados de maio de 2014, acompanhou Ricardo Salgado a uma reunião com Carlos Moedas.

Ficámos a saber com mais detalhe o conteúdo das reuniões que José Honório e Ricardo Salgado mantiveram com as autoridades políticas, antes da concretização do aumento de capital do BES. Ricardo Salgado e José Honório reuniram-se com Durão Barroso, Cavaco Silva, Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque e Carlos Moedas.

Disse ainda José Honório que terá sido entregue um memorando a Carlos Moedas sobre a situação da área não financeira do GES, que evidenciava um passivo de 7600 milhões de euros (4,5% do PIB de 2014).

Por esta altura, todas as autoridades conheciam o grau de exposição do BES ao GES, ou seja, que uma grande fatia dos títulos de dívida do GES estavam nas mãos dos clientes do retalho e do private do BES. Como se sabe, tudo isto aconteceu através de esquemas criminosos, fraudulentos e enganosos, gerando um vasto universo de lesados, entre particulares, empresas e o Estado.

Foi também revelado por José Honório que estas reuniões decorreram antes da operação de aumento de capital do BES, concretizada em meados de junho.

Esta sequência de factos leva-nos a concluir que as principais autoridades políticas da União Europeia e nacionais conheceram o “buraco” do GES-BES ainda antes do aumento de capital do banco. E, aparentemente, nada fizeram para o impedir.

Ricardo Salgado encabeçou uma fraude gigantesca. Foram cometidos crimes económicos, financeiros e fiscais graves. Ricardo Salgado é o principal responsável pela queda do GES-BES.

O que está em causa são as declarações de José Honório, proferidas esta semana, cuja idoneidade foi reiteradamente validada, e nunca censurada, pelas autoridades que o convidaram para administrador do BES-NB.

O telefonema de Ricardo Salgado a Carlos Moedas e a reunião entre ambos permitiram a Carlos Moedas aceder a informação relevantíssima. Provavelmente, o mesmo aconteceu com Durão Barroso, Cavaco Silva, Passos Coelho, Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque.

Os portugueses há muito que aguardam respostas a determinadas perguntas. Por que razões as autoridades políticas não agiram atempadamente para evitar o colapso do BES? Por que razões não impediram o aumento de capital em junho de 2014? Por que razões vieram a público, a poucos dias da resolução, prestar garantias quanto à solidez do BES?

Persistem dúvidas, suposições e exclamações que só podem ser esclarecidas por quem de direito.

O regime jurídico dos inquéritos parlamentares não obriga Cavaco Silva a depor, mesmo que por escrito. Os ex-primeiros-ministros podem depor por escrito. Maria Luís vem depor no dia 1 de abril.

O Inquérito ao NB tem revelado factos novos. Isso aborrece e perturba alguns setores. Os que se doem pela procura da verdade chamam a isto jogada política.

A jogada política mais feia é continuar a fintar os portugueses, deixando de fora quem pode responder a tudo isto!

O PS quer questionar estas autoridades políticas. O PS quer ouvir Carlos Moedas. É a oportunidade para o próprio esclarecer se funcionou ou não funcionou, o que soube em concreto, o que fez e o que não fez.