Protestos violentos no Bangladesh contra visita de Modi fazem quatro mortos

O primeiro-ministro indiano está no país vizinho para os festejos do 50.º aniversário da independência, mas a visita recebeu a oposição de quem o acusa de discriminar muçulmanos na Índia.

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Protesto contra a visita de Modi junto à mesquita Baitul Mokarram em Daca MONIRUL ALAM / EPA

Os protestos no Bangladesh contra a visita do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, causaram pelo menos quatro mortos na cidade de Chittagong esta sexta-feira. Os manifestantes opõem-se à presença de Modi nos festejos do aniversário da independência do país por causa do que dizem ser a perseguição do Governo indiano contra a minoria muçulmana.

As mortes ocorreram na sequência de confrontos entre membros Hefazat-e-Islam Bangladesh, um grupo islamista, e a polícia em Chittagong, no Leste do país. “Tivemos de disparar gás lacrimogéneo e balas de borracha para dispersar [os manifestantes] quando estavam a entrar na esquadra de polícia e tinham levado a cabo [actos de] extremo vandalismo”, disse o agente Rafiqul Islam, citado pela Reuters.

Também houve fortes protestos na capital, Daca, onde centenas de pessoas se concentraram perto da mesquita Baitul Mokarram pouco depois das orações de sexta-feira. Um grupo significativo de manifestantes retirou os sapatos e ergueu-os no ar como sinal de repúdio a Modi, diz a Al-Jazeera.

O acto foi respondido com violência por parte de outra multidão, que tentou impedi-los de mostrar os sapatos. O segundo grupo está conotado com a Liga Awami, o partido no poder no Bangladesh e que foi responsável pela visita do primeiro-ministro indiano.

Apesar de a Índia ser um aliado histórico do Bangladesh – desde logo pelo papel que desempenhou na guerra pela independência bengali contra o Paquistão –, muitos sectores do país de 161 milhões de habitantes encaram Modi como um inimigo dos muçulmanos por causa das suas políticas internas. O primeiro-ministro tem assumido uma agenda que favorece abertamente a comunidade hindu maioritária na Índia, enquanto ignora os ataques com motivação religiosa contra os muçulmanos.

“O seu Governo aprovou várias leis que fazem dos muçulmanos cidadãos de segunda classe na Índia. Não o queremos aqui no Bangladesh”, disse à Al-Jazeera o secretário-geral da Hefazat-e-Islam, Maulana Mamunul Haque.

Na véspera, organizações estudantis também organizaram protestos contra a visita de Modi, que acabaram por se tornar violentos, tendo sido registadas 18 hospitalizações.

Para além do tratamento dado à comunidade muçulmana indiana, os manifestantes também condenaram a morte de membros da guarda fronteiriça do Bangladesh pelas forças de segurança indiana – Nova Deli diz que esses incidentes ocorrem quando são detectadas tentativas de fazer passar mercadorias em contrabando pela fronteira.

Influência indiana

Modi foi um dos líderes regionais convidados pelo Governo do Bangladesh para celebrar o 50.º aniversário da independência do país. Até 1971, o Bangladesh fazia parte do Paquistão e travou uma guerra de nove meses, com o apoio indiano, para alcançar a autodeterminação.

Desde então, Índia e Bangladesh têm sido aliados próximos em vários assuntos, embora alguns especialistas sublinhem a grande influência indiana nos assuntos internos do país vizinho.

“É geralmente aceite que a Índia tem uma enorme influência na política interna do Bangladesh. As declarações negativas de dirigentes do BJP [o partido de Modi] sobre os bengalis e as políticas discriminatórias do Governo de Modi também compõem a situação”, disse à Al-Jazeera o professor de Ciência Política da Universidade do Illinois, Ali Riaz.

Um dos pontos de maior divergência é a ausência de um acordo sobre a gestão das águas do rio Teesta, um de muitos partilhados pelos dois países.

O Governo do Bangladesh desvalorizou os protestos contra a visita de Modi, acusando os opositores de serem “fundamentalistas”. “Não representam a voz do povo do país”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, AK Abdul Momen.