A representação parlamentar de partidos de direita radical faz os seus apoiantes sentirem-se legitimados

O sucesso da direita radical faz com que indivíduos que já tinham posições de direita radical, mas que não as expressavam em público, se sintam mais confortáveis em fazê-lo.

O sucesso eleitoral da direita radical é um fenómeno global. Nos últimos cinco anos, candidatos de direita radical venceram eleições no Brasil (Bolsonaro), Estados Unidos (Trump) e Filipinas (Duterte). Na Europa, praticamente todos os países têm um partido de direita radical nos seus parlamentos. Em Portugal, concretamente, as eleições de 2019 foram marcadas pela entrada do Chega no parlamento – cujo líder foi uma das figuras principais das eleições presidenciais de janeiro de 2021.

Depois da Segunda Guerra Mundial e da experiência catastrófica do autoritarismo na Europa, a maior parte das democracias ocidentais criou normais sociais contra posições não alinhadas com valores da democracia liberal – como sejam posições racistas ou autoritárias. Como um conjunto de estudos na psicologia social mostra, em virtude destas normas, apesar de muitos indivíduos continuarem a ter estas posições em privado, tendem frequentemente a não as expressar explicitamente em público por saberem que elas não são aceitáveis numa democracia liberal.

Dado que políticos de direita radical como André Ventura transgridem abertamente estas normais, e dado o seu sucesso eleitoral em anos recentes, uma questão que se tem levantado no debate público é até que ponto tal sucesso normaliza a transgressão das normas de uma democracia liberal como a portuguesa.

A presença da direita radical no parlamento, concretamente, tem o potencial para ter tal efeito normalizador. Por um lado, ela sinaliza sucesso eleitoral pela parte do partido. Tal sinal pode fazer com que os eleitores percecionem que o número de apoiantes da direita radical é mais alto do que pensavam. Por outro lado, as instituições políticas têm o potencial para legitimar os atores nelas representados. Assim, à medida que os partidos de direita radical entram no parlamento dos seus países, poder-se-ia esperar que as suas posições se normalizassem e os seus apoiantes se sentissem legitimados.

Esta é a questão que motiva um artigo que publiquei recentemente na revista Comparative Political Studies (“Parliamentary Representation and the Normalization of Radical Right Support”). Neste artigo mostro que, efetivamente, a representação parlamentar de partidos de direita radical normaliza posições de direita radical.

O artigo baseia-se numa nova medida de quão aceitável é expressar apoio à direita radical.

Esta medida consiste na proporção do voto oficial de um partido que é declarado em inquéritos pós-eleitorais. No rescaldo de cada eleição, estes inquéritos questionam uma amostra representativa da população acerca do seu sentido de voto nela. As entrevistas para tais inquéritos representam uma interação social com uma pessoa desconhecida (o entrevistador). Como tal, temendo ser julgados, muitos apoiantes da direita radical preferirão não declarar tal apoio.

De facto, o voto na direita radical que é declarado em tais inquéritos é consistentemente inferior ao seu resultado eleitoral real. Esta pressão social, no entanto, não se estende de igual forma ao voto, dado que este se faz em privado. Como tal, o voto oficial num partido representa uma medida de quantos eleitores apoiam a direita radical na ausência de pressões sociais. Em contrapartida, o voto na direita radical que é declarado em inquéritos pós-eleitorais representa uma medida de quantas pessoas numa população estão dispostas a assumir ao entrevistador que apoiam a direita radical, apesar da pressão social para não declarar tal apoio.

O artigo mostra que a proporção do voto oficial na direita radical que é declarado em inquéritos pós-eleitorais aumenta significativamente quando estes partidos adquirem representação parlamentar. As análises principais do artigo focam-se em dados de 80 partidos de direita radical em 21 países, entre 1996 e 2018. Os resultados mostram que, por cada 10 indivíduos que haviam votado na direita radical, quatro a cinco pessoas adicionais estavam dispostas a admitir que o haviam feito se estes partidos tivessem tangencialmente entrado no parlamento (comparados com partidos que tivessem ficado tangencialmente aquém do apoio eleitoral necessário para entrar no parlamento).

Os resultados demonstram também que o efeito se torna mais forte à medida que aumenta o espaço de tempo entre a eleição e a entrevista para o inquérito pós-eleitoral. Isto sugere que a normalização das posições da direita radical se faz ao longo do tempo e que as instituições políticas enviam, de facto, sinais acerca de que comportamentos são aceitáveis numa sociedade.

Estas análises são corroboradas por análises adicionais ao nível individual (por oposição às análises iniciais, ao nível do partido) e por um estudo de caso do partido UKIP, no Reino Unido, antes e depois de este entrar no parlamento. Em ambos os casos, os resultados corroboram a conclusão principal. Quando os partidos de direita radical têm representação parlamentar, os eleitores sentem-se significativamente mais confortáveis em expressar-lhe apoio.

No seu todo, as análises do artigo mostram que, apesar de haver normas sociais contra a expressão de posições de direita radical, o continuado sucesso de políticos de direita radical pode levar à erosão dessas normas. É importante sublinhar que os resultados do artigo não sugerem que esta consequência seja somente fruto de as posições dos eleitores se tornarem mais radicais. Pelo contrário, o artigo sugere que o sucesso da direita radical faz com que indivíduos que já tinham posições de direita radical, mas que não as expressavam em público, se sintam mais confortáveis em fazê-lo. Estes resultados têm importantes implicações, principalmente tendo em conta que este efeito se poderá fazer sentir não apenas na declaração de apoio à direita radical, mas também num conjunto de outros comportamentos associados com a direita radical e contrários aos valores da democracia liberal.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico