Contra a precariedade para mudar de vida!

Esta quinta-feira a coragem sai à rua no Porto e em Lisboa e muitos jovens responderão ao apelo da Interjovem/CGTP-In para assinalar o dia nacional da juventude.

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RG Rui Gaudencio

O Francisco, 26 anos, finalmente conseguiu um contrato efectivo na Benetton, mas quando veio a covid-19 foi mandado para casa sem compensações, porque ainda estava no período experimental de 6 meses.

A Rute, 21, trabalha na Autoeuropa através de empresas de trabalho temporário. Com a quebra de produção não foi mais chamada.

O David fez 23 anos no dia em que se assinalou um ano sobre o primeiro estado de emergência. Até então, trabalhava num bar, sempre à pinha de turistas. Conseguiu assim ir suportando a renda e as propinas, mas nunca viu um contrato e trabalhou sempre a falsos recibos verdes.

O Pablo, 30, trabalha na Teleperformance e envia parte do que recebe aos pais. Constantemente a mudar de projecto dentro da empresa, com contratos a termo incerto, foi informado de que o vão dispensar por “falta de trabalho”, enquanto a mesma Teleperformance está a contratar mais de 1000 novos trabalhadores.

Luísa, 29, é mãe solteira. De manhã no call center da EDP, à tarde atravessa a estrada para atender telefonemas num hospital privado e à noite faz serviços de Uber.

A Mariana, 26, é enfermeira, foi chamada para acudir o SNS. Sente-se bem por poder ajudar nesta batalha difícil, sabe que faz falta ao serviço, mas a ansiedade vai sendo cada vez mais insuportável, à medida que se aproxima o fim dos quatro meses de contrato.

Marta, 25, quando terminou o mestrado, deslocou-se 321 quilómetros e começou a trabalhar na cantina da EPAL. À tarde, vai dar Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC) a recibos verdes numa escola pública, através de uma IPSS.

São alguns dos jovens trabalhadores do nosso país. Apenas os nomes não são reais, o resto é o retrato da situação de milhares de jovens que adiam planos, aventuras, sonhos e projectos.

O desemprego dos jovens até aos 25 anos atingiu os 26% em agosto, valores (registados) que são o resultado prático da precariedade: mais vulnerabilidade, mais desproteção social.

A esmagadora maioria alterna entre contratos a prazo, recibos verdes, estágios não remunerados, bolsas de investigação, empresas de trabalho temporário. Estes jovens são precisos todos os dias porque ocupam postos de trabalho que estão sempre lá, mas são tratados como descartáveis e foram-no, assim que a epidemia se abateu no nosso país.

A precariedade não é a exceção, é a regra tanto no setor público como no privado.

Tanto que, quando começaram a ser criados os apoios para os desempregados da pandemia, foi preciso inventar novos apoios, novas categorias, porque rapidamente se percebeu que a fragilidade dos vínculos deixava milhares de fora.

Estes jovens recebem menos, não adquirem direitos de antiguidade ou progridem na carreira. Já foram avisados de que a sindicalização não é bem vista lá na empresa, que é como quem diz, lembra-te que estás aqui a prazo.

Apesar de tudo, esta quinta-feira a coragem sai à rua no Porto e em Lisboa e muitos jovens responderão ao apelo da Interjovem/CGTP-In para assinalar o dia nacional da juventude.

Estão a lutar para mudar de vida, mas estão a luta pelo nosso país também.

Os salários são “a parte que fica” em Portugal dos lucros milionários sediados na Holanda e da fiscalidade paradisíaca; os descontos que fizerem hoje são o garante da Segurança Social e de um futuro mais tranquilo para todos; tudo o que estes jovens conseguirem – mais estabilidade, melhores salários – reverter-se-á em poder de compra e perspetiva de sobrevivência de milhares MPME.

Meter um travão na laboração contínua (que até as batatas fritas da Matutano ou as lentes de contacto da Carl Zeiss parecem justificar), na generalização do trabalho por turnos e do trabalho noturno é permitir a estas gerações ter tempo para a vida pessoal e para participar na vida cívica, ter vida para fazer a tão falada “reposição geracional”.

O país só pode avançar se investirmos na valorização do trabalho e dos trabalhadores. A degradação da qualidade do emprego está na génese dos grandes problemas estruturais do nosso país e o combate à precariedade tem de sair dos discursos e do papel. É urgente mudar de políticas para que possamos mudar de vida.