Façam-nos acreditar!

Neste dia 24 de março, é imperioso relembrar que é na resposta estatal que se vislumbra o último reduto para que se evite um remake do que vivemos na última crise económica, com o aumento do abandono escolar, a precarização de uma geração à rasca e os mecanismos de justiça e equidade social a serem rapidamente extintos.

Neste dia 24 de março, comemora-se o Dia Nacional do Estudante, um dia promulgado pela Assembleia da República há trinta e quatro anos, com o valoroso desejo de homenagear as gerações académicas das lutas estudantis da década de sessenta no nosso país. Ao longo destes trinta e quatro anos, o património coletivo imaterial que se assinala foi largamente ampliado, com a militância apaixonada de milhares de estudantes a recordar-nos a importância das suas lutas para o desenvolvimento do ensino superior, da sociedade e da democracia no nosso país. Foram reivindicações contra as propinas, a fórmula de atribuição das bolsas de ensino superior ou o sistema de governo das instituições. Muitas delas cumpridas, outras a cumprir-se, assegurando-se, no entanto, que a perseverança estudantil garantiu a contínua manutenção da sua agenda reivindicativa no centro das políticas de ensino superior e que a sua intervenção, lucidez e paixão geraram frutos, mesmo que tardios.

Por isso mesmo, neste dia 24 de março, há que lembrar e homenagear todas aquelas gerações académicas que nunca desistiram de reivindicar um ensino superior universal, público, gratuito e de qualidade, uma sociedade justa e igual, um sistema democrático para Portugal. Mas este dia 24 de março deverá ser também momento para assinalarmos o ano verdadeiramente caótico que vivemos, desde o início da pandemia, e como ele vaticina um futuro muito pouco auspicioso para o ensino superior e para a juventude.

Ao longo destes doze meses, a pandemia afetou substancialmente a estabilidade económica dos jovens e suas famílias, com cortes nos rendimentos provocados pelo layoff e pelo desemprego. Estas quebras foram particularmente exigentes para os que já pouco ganhavam em condições normais, adensando a situação precária destas famílias que, a braços com a incerteza de lidar com um vírus desconhecido, perderam ainda o sentimento de esperança que a recuperação económica dos últimos anos tinha espoletado. É inegável esta sensação agoniante de que estamos prestes a resvalar para um novo período de recessão severo que colocará em causa o desenvolvimento do país e as conquistas dos últimos anos.

Neste dia 24 de março, é imperioso relembrar que é na resposta estatal que se vislumbra o último reduto para que se evite um remake do que vivemos na última crise económica, com o aumento do abandono escolar, a precarização de uma geração à rasca e os mecanismos de justiça e equidade social a serem rapidamente extintos, com consequências trágicas para o bem-estar dos cidadãos e para o desenvolvimento socioeconómico de Portugal. Por isso, neste dia 24 de março, acreditamos que deve ser a prioridade da geração académica incitar toda a sociedade portuguesa para a importância de se concretizarem respostas políticas necessárias para garantir, no próximo ano letivo, o direito constitucionalmente consagrado de acesso universal ao ensino superior. A propina 0, o aumento substancial do número de camas em residências estudantis e o reforço das bolsas serão algumas das mais essenciais garantias para evitar um recuo brutal nas conquistas alcançadas nos últimos seis anos no ensino superior. Esse caminho trilhado trouxe-nos a esperança de alcançar em breve um ensino superior universal capaz de ser o necessário ascensor social num país marcado pela sua inamovibilidade. Não a podemos perder agora, num dos momentos mais duros da nossa história coletiva.

Neste dia 24 de março, glosando a eloquência coimbrã de Luiz Goes, é preciso acreditar. É preciso acreditar na sensibilidade de todos os agentes políticos para não abrandarem na edificação de um ensino superior universal, gratuito e de qualidade; é preciso acreditar que o próximo ano letivo não será sinónimo de precariedade e de uma geração prostrada no seu próprio desespero futuro; é preciso acreditar que será garantida uma vida digna, numa sociedade justa e igualitária aos milhares de jovens já cansados de verem a sua felicidade hipotecada por crises cíclicas.

Depois de um ano tão difícil, neste dia 24 de março é preciso acreditar. Esta geração precisa de acreditar. Por isso, por favor, façam-nos acreditar!

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico