Três padarias da mesma família produzem regueifa doce na Feira desde o século XIX

Maria Magalhães nasceu por volta de 1860 e tornou-se doceira, muito afamada pelas suas regueifas. O talento foi passado às filhas, destas para as netas e agora está entregue às bisnetas. São padarias na mesma rua de Lobão e que também já adocicam a Internet.

Foto
Luciana Matos, Pastelaria Lurdes Magalhães Alexandra Couto

Três padeiras de Santa Maria da Feira originárias da mesma família do século XIX – e com estabelecimentos concorrentes na mesma rua – empenham-se até à Páscoa no fabrico reforçado da regueifa doce, apontada como especialidade menos conhecida do município.

A garantia é do próprio presidente dessa autarquia do distrito de Aveiro, que explicou à Lusa que o referido pão doce de tom amarelo e aparência entrançada sempre teve mais tradição na zona norte do concelho, comendo-se todo o ano, mas sendo particularmente procurado na quadra pascal.

“Agora produz-se de maneira diferente, mas a regueifa doce é daquelas memórias de infância que ainda tenho muito viva. Lembro-me perfeitamente que, tinha eu seis ou sete anos, ia com a minha avó à mulher que cozia a regueifa e depois lá ficávamos todo o dia à espera, porque nós levávamos os ovos e a farinha, mas era ela que a amassava e metia no forno, enquanto a vizinhança ficava lá fora a conversar”, recorda o autarca Emídio Sousa.

Mais antiga é a história das descendentes de Maria Magalhães, que nasceu em Lobão por volta de 1860 e se tornou doceira particularmente dotada para as regueifas. Esse talento passou-o para as filhas, dessas para as netas e agora está entregue às bisnetas, insinuando-se já nas gerações seguintes, que, embora menos próximas entre si devido aos cruzamentos operados na árvore genealógica original, mantêm o hábito de ajudar as matriarcas na cozinha e nos fornos - e, cada vez mais, na promoção do negócio online.

No périplo pelas três casas de regueifa na Rua de São Tiago, a Pastelaria Lurdes Magalhães surge com um pátio e uma montra discreta, revelando no interior um forno industrial com várias entradas e uma sala mais acolhedora de mesa forrada por centenas de biscoitos húngaros.

Como a senhora que dá nome à casa já morreu, agora é a filha Luciana Matos que mergulha metade de cada bolacha em chocolate derretido e aproveita para contar: “Na primeira fase da pandemia vimo-nos e desejámo-nos. Deixámos de fazer as missas, as romarias, as feiras, as praças. Mas depois fomos à luta e adaptámo-nos. Começámos nós a procurar os clientes porta-a-porta, ligámos a quem fazíamos revenda e a coisa foi-se compondo.”

É por isso que Luciana se diz “muito grata aos clientes fiéis que ajudaram” nos piores momentos. É certo que em 2019 vendeu umas 700 regueifas só no fim de semana da Páscoa e que em 2020 não chegou a produzir “nem um quarto” disso, mas este ano acredita que a família vai voltar a fazer uma ou duas directas sem passar pela cama e a sua irmã Fátima explica porquê: “A distribuição foi organizada de forma que o cliente não tenha que circular entre concelhos e estão a chegar mais encomendas.”

Foto
Doçaria Laidinha Magalhães Alexandra Couto

Na Doçaria Laidinha Magalhães, a segunda da mesma rua com origem no século XIX, há uma mesa posta para dar a provar os mimos da casa junto a fotografias de antepassados. Laidinha gostava de ter sido enfermeira e a irmã Conceição médica, mas ambas acabaram nos doces e, apesar de esta ser “uma vida muito dura”, mostram-se felizes com a escolha de uma existência modesta entre lambarices e até conseguem sorrir à lembrança dos tempos em que, ainda meninas, “iam de carrego à cabeça” montar bancas de venda nas romarias da região.

Riso convicto, contudo, é o motivado pela memória de viagens em camião: “Baixávamos a cabeça de vergonha ao passar na escola, feitas inocentes, como se alguém lá fosse estar às três da manhã para ver que íamos faltar às aulas para ajudar os nossos pais! A nossa sorte foi que tínhamos uma professora muito boa, a dona Idalina de Gião, e ela nos ajudava por fora, porque, com o cansaço, quando estávamos nas aulas adormecíamos na carteira.”

Entre antigas balanças de pratos, lenha e gavetões com regueifas em repouso, Laidinha agora recebe encomendas pelas redes sociais e às vezes nem consegue “dar vazão aos telefonemas”, mas o que lhe faz realmente brilhar os olhos é pensar nos seus pastéis de nata, no pudim francês à antiga, no rolo de chocolate, nas bolas-de-berlim de alfarroba... Come pecados desses “todos os dias” e não receia combinações como as de regueifa doce com presunto, azeitonas ou bacalhau cru desfiado.

Foto
Pastelaria da Celeste Alexandra Couto

A terceira padaria da linhagem Magalhães é a da Celeste, que diz que a pandemia lhe “estragou o negócio todo”, mas continua vivaça apesar das perdas. Entrou para o negócio aos 13 anos porque era quem melhor sabia ler e escrever para ajudar os sogros e hoje é a mentora do estabelecimento, que também aceita encomendas de bolo de ananás, pão Teixeira ou cavacas, mas onde o produto mais procurado é a regueifa, tradicional ou com fruta cristalizada.

“Temos a normal, que é a mais barata, e depois, se o cliente me disser ‘olha que o preço não interessa e quero é uma mesmo boa’ aí meto-lhe mais ovos, mais manteiga e até um bocadinho de vinho do Porto, para a qualidade ser outra”, revela Celeste, no seu banco de jardim.

Entre vasos de orquídeas com armadilhas para formigas, queixa-se da falta de fiscalização aos negócios ilícitos e diz que o que lhe vale é o açúcar. “Por muito que as pessoas estejam com problemas, têm sempre dinheiro para comprar uns bolinhos de vez em quando e adoçar a boca. Assim engorda-se um bocado, mas deixa-se de pensar em coisas tristes”, garante, sempre a espreitar os condutores dos carros que passam, a ver se algum lhe vem bater ao postigo.

As três padarias das famílias Magalhães constam de uma lista que, no site da Câmara da Feira, apresenta as iguarias gastronómicas típicas do concelho e os seus principais produtores. A listagem actual integra cerca de 50 fabricantes de regueifa doce, fogaça e caladinhos a operar em 18 freguesias do território.