O brilho perdido do Reino Unido

Como é possível que um país decisivo nas duas guerras mais horríveis da história vire as costas aos seus aliados, precisamente numa altura em que os desafios da geopolítica exigem a força da unidade coletiva para enfrentar as grandes potências como a Rússia ou a China?

O Reino Unido sempre foi um país de muitas ideias e grandes personalidades. É uma das mais antigas democracias, o berço da revolução industrial e de revoluções culturais. As universidades são antigas e prestigiadas. Os Beatles, John Le Carré, Agatha Christie ou as mini-saias de Mary Quant marcaram várias gerações. O gentleman e o Rolls-Royce são imagens de marca. É um país com uma história rica e densa que conhecemos na escola para aprender a língua, a terceira mais falada no mundo. Mas depois veio o “Brexit" e todo este brilho empalideceu.

Quando se pensa na saída do Reino Unido da União Europeia é impossível não sentir uma mistura desencontrada de sentimentos, entre a perplexidade e a nostalgia, pelo fim de uma relação baseada na admiração. É difícil acreditar que o país tenha embarcado nas ilusões do populismo e do nacionalismo que veio a culminar no divórcio com a União Europeia. O “Brexit” ficará sempre como uma grande lição sobre os desastres a que conduzem os extremismos, que andam por aí à solta e, infelizmente, também em Portugal.

Na comparação da “America Great Again” de Donald Trump com a “Global Britain” de Boris Johnson, encontramos os mesmo elementos de megalomania que escondem um país em perda, como ficou ilustrado com a história recente dos Estados Unidos até à eleição de Joe Biden. Num e noutro país se viu o fechamento sobre si próprio justificado com uma orgulhosa auto-suficiência. Com Trump e com Johnson as políticas migratórias agressivas ofendem a dignidade humana. No Reino Unido, os imigrantes agora valem pontos e há os de primeira e os de segunda classe, o que é contraditório para um país que sempre soube acolher toda a gente de todo o mundo.

Se foi penoso ver uma das nações mais pragmáticas a patinar na discussão do acordo de saída, as coisas não melhoraram depois de consumado o “Brexit”. Agora acumulam-se tensões que surpreendem, como o não reconhecimento do título de embaixador ao diplomata da União Europeia e a crispação por causa das vacinas. Ou a revisão da sua política externa ignorando as relações com a União Europeia. O pior, e que atinge a credibilidade do Reino Unido no mundo, é o desrespeito repetido do acordo de saída, sempre associado às regras do mercado interno, que ajudou a definir enquanto membro hiperativo da União Europeia.

Como é possível que um país decisivo nas duas guerras mais horríveis da história vire as costas aos seus aliados, precisamente numa altura em que os desafios da geopolítica exigem a força da unidade coletiva para enfrentar as grandes potências como a Rússia ou a China? O que é recuperar o controlo e a soberania no século XXI? É o caminho do orgulhosamente só?

A história ensina que nenhum império é eterno, se calhar como nem a União Europeia o será. E, tal como o império Britânico se desfez, o Reino Unido também não está livre de se desagregar. Do mesmo modo que o Governo de Boris Johnson, felizmente, não ficará para sempre, mesmo que para sempre fique como o que impulsionou o “Brexit” e fechou o dossiê da mãe de todas as confusões em que o país se meteu.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico