“É uma vida difícil, mas não temos patrões a mandar na gente”

Pelas águas do Sado, embarcámos com Cláudia Martins para aprender como se apanha lingueirão, mas acabámos por ficar horas a bordo a ouvir teses sobre pesca, especulação imobiliária e negócios duvidosos. Sem lamúrias. Cláudia e o marido pescam por amor ao mar e ao rio – e sempre juntos, como mandam as tradições.

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Cláudia Martins faz parte do grupo restrito de mulheres que, na margem sul do rio Sado, trata os assuntos do mar como qualquer homem porque, diz, “nas nossas tradições, não há diferenças quando estamos a trabalhar”. Manobrar o barco, tratar do motor, largar e puxar redes, deitar e levantar alcatruzes ou levar o peixe para a lota, aqui o género é irrelevante.

Entre o cais das Adufas, no Possanco, o cais palafítico da Carrasqueira e, mais a norte, o cais das Pousadas, Cláudia imagina que ainda existam uns 10 casais que se dedicam à pesca, mantendo assim a regra de mulher, marido e, por vezes, filhos, todos a trabalhar no mesmo barco.

Cláudia tem 43 anos, é neta de pescadores de Setúbal e anda no mar desde os 16 anos, altura em que se apaixonou por Victor Isidoro num bailarico das festas de Nossa Senhora do Rosário, em Tróia. Como Victor teve de ir à tropa, Cláudia começou a ir ao rio com a sogra, que foi quem lhe meteu “o vício do mar”. “Ela ensinou-me muito e a gente divertia-se. Houve uma altura em que tirei a carta de mota, para irmos do Possanco para o Cais das Adufas, que ainda são uns 5 ou 6 quilómetros. Certa vez, depois da pesca, vínhamos a duas na mota e trazíamos um balde cheio de choco. O caminho era ruim e, por não me ter desviado de uma cova, malhámos as duas no chão. Quando fomos recuperar os chocos para os meter na lata, não cabiam porque a lata tinha ficado toda empenada. Ficamos as duas a rir não sei quanto tempo por causa de uma coisa tão tola.”

“O patrão é o mar”

Quem acompanhe o universo da pesca detecta facilmente aqueles que só se metem nesta vida por ausência de alternativa ou quem não consegue viver sem o mar ou o rio. Cláudia está neste último grupo. “Gosto disto. É uma vida difícil, mas, ao mesmo tempo, não temos patrões a mandar na gente. O patrão é o mar. E é conforme as marés. Há dias melhores e dias piores. Dias em que o tempo não deixa. Nesta altura do ano [época forte para a apanha do choco] não há sábados, domingos ou feriados.”

Embora não faça, hoje, parte das Guardiãs do Sado – um grupo de mulheres comprometidas com a defesa das pradarias marinhas do rio no âmbito do projecto Ocean Alive, criado pela bióloga Raquel Gaspar –, Cláudia Martins pesca no Sado com a consciência de que tem de proteger os recursos para as gerações futuras. Não usa artes proibidas, não vende peixes com tamanhos ilegais, nem deixa resíduos de plástico no rio. E todos aqueles que malham nas redes voltam para a terra. Quando apanha polvos abaixo dos 700 gramas devolve-os ao rio. “Isto é o nosso ganha-pão. Imagine que eu apanho 20 polvos pequenos – tipo ferradinhos –, não vou trazer isso. Daqui a dois ou três meses eles estão enormes.”

Esta é uma mudança de comportamento que se verifica nas comunidades piscatórias profissionais. Já quanto aos pescadores desportivos, as coisas são diferentes, visto que são menos fiscalizados e não têm de levar o peixe à lota. Donde, nunca se sabe ao certo quanto é que os pescadores lúdicos retiram dos rios e do mar.

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“Havendo peixe e vontade de trabalhar, não nos podemos queixar”

Mulher com actividade política em assembleias de freguesia, Cláudia irrita-se facilmente com aqueles que fazem dos terrenos da Comporta uma bolha imobiliária para ricos – “os meus filhos nunca poderão construir uma casa aqui, como eu construí, e acho isso muito triste”, lamenta – e com aqueles que vêm farejar negócios duvidosos no rio. “Nós, aqui, temos uma arte antiga da apanha do choco que consiste em espetar no leito do rio ramos de árvores. O choco vem do mar para se reproduzir no rio e gosta de pôr os ovos nesses ramos. Põe os ovos e fica por ali a protegê-los, que é quando a gente o apanha à mão. Então não é que apareceu aí um fulano que achou piada a isso e começou logo a pensar num negócio gourmet da venda das ovas do choco não sei para onde? Manifestei-me logo contra, porque isso era destruir a vida no rio. Felizmente, nunca mais cá apareceu.”

Se retirarmos da equação o facto de o preço do choco pago aos pescadores ser hoje “o mesmo que se pagava há 20 anos, entre os 5 e os 6 euros por quilo, consoante os tamanhos”, Cláudia e Victor não alimentam a lamúria da vida de pescador. “Por comparação com tantas actividades, acho que merecíamos mais apoios, mas, havendo peixe e vontade de trabalhar, não nos podemos queixar.” O choco é a pescaria principal, entre Março e Maio, “mas é o polvo que deixa mais dinheiro. Em Setúbal conseguimos vender a 12 euros o quilo. É um bom preço.” No dia em que o PÚBLICO acompanhou o casal e o filho Alexandre, a pesca rendeu cerca de 300 euros brutos. 

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Não foi um dia mau de pesca, mas convém ter em conta que, por um lado, 12% desse valor fica retido pela Docapesca (parte como desconto para a Segurança Social, parte para suportar os custos de funcionamento da lota) e, por outro, há um conjunto de despesas para financiar actividade: combustível e artes de pesca, consertos na embarcação ou no motor, amortizações.

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A apanha do lingueirão

Choco e polvo à parte, Cláudia dedica-se, de vez em quando, à apanha do lingueirão – canivetes, como se diz por estas bandas. E de vez em quando porque o lingueirão tem, obrigatoriamente, de ir à depuradora para ser comercializado e isso torna o negócio menos atractivo. Mas o que é fascinante é a técnica de captura. Com a maré vazia, os pescadores dirigem-se aos cabeços (espécie de ilhas que ficam a descoberto ao longo do rio) e, quando detectam as “tocas” onde estão os lingueirões – buracos em forma de 8 –, esguicham-lhes sal fino. Os bichos, com tal carga de salinidade, têm de vir à superfície limpar a toca com urgência. É nesta altura que são apanhados com a maior das facilidades. “Isto não tem nada que saber. Até uma criança se diverte e enche rapidamente um balde de lingueirão”, ri-se Cláudia. A boa disposição, a sua força e a destreza a gerir as artes de pesca estão sempre juntas. 

A presença da equipa do PÚBLICO traduziu-se em três passageiros a mais num pequeno bote de apoio ao Três Marias. No regresso da pescaria, como a maré estava vazia, a dada altura o motor deixou de funcionar porque a hélice já rodava no lodo. Ainda se tentou remar, mas o barco não se mexia. A solução de Cláudia: saltar para o rio e, com a água pela cintura, empurrar o bote até ao cais das Adufas, com três finórios a assistir. Alguém, envergonhado, insinuou que ia dar uma ajuda do lado de fora, mas Cláudia disparou: “Não, não. Deixem-se estar aí que ainda ficam atascados e estragam esses equipamentos todos.”

De facto, no Sado, não há distinção do trabalho entre homens e mulheres.