Polícia Judiciária investiga vacinação do marido e pai de administrativa da USF Descobertas

Suspeitas levaram elementos do Conselho Geral da USF Descobertas a apresentar uma Carta Aberta onde defenderam que a secretária clínica não deveria continuar a desempenhar as funções de interlocutora administrativa durante o período em que decorrerem as averiguações.

Foto
Rui Gaudencio

A Polícia Judiciária está a investigar a vacinação de familiares de uma administrativa da Unidade de Saúde Familiar (USF) Descobertas, localizada na Junta de Freguesia de Belém, em Lisboa. Os familiares em causa são o pai e o marido desta administrativa. Ao que o PÚBLICO apurou, foram ambos vacinados no dia 12 de Fevereiro no pavilhão da Ajuda.

 O caso levantou suspeitas quando no final do dia terão faltado duas vacinas para dois utentes que estavam convocados desde o dia anterior. E quando os enfermeiros foram ver as listas foi verificado que dois utentes foram vacinados a meio da tarde, sendo que não estavam na lista inicial dos convocados. Mais estranharam quando no meio da lista, entre utentes com 95, 88, 87 e 80 anos estava um com 61. Este utente com 61 anos é o marido da administrativa e foi vacinado às 14 horas.

Segundo uma fonte que esteve no pavilhão da Ajuda onde, no dia 12 de Fevereiro, foram vacinadas mais de 400 pessoas, das juntas de freguesia de Belém, Ajuda, Alcântara e Campo de Ourique, no dia anterior à noite tinham sido convocados apenas utentes com mais de 80 anos.

Esta vacinação do dia 12 de Fevereiro tinha, contudo uma particularidade: como se tratava de sobras de vacinas destinadas a um lar em Oeiras, mas que ficaram por dar porque entretanto houve um surto na instituição, a operação tinha de ser realizada em tempo recorde. Os presidentes das Juntas de Freguesia tiveram então de convocar pessoas na noite anterior para evitar o desperdício de vacinas.

De acordo com a mesma fonte, o pai da administrativa, apesar de ter 80 anos e encaixar no perfil de utentes a vacinar nesse dia, e o marido, que à data apenas tinha registado no seu histórico uma bronquite crónica que não o colocava nos doentes prioritários, foram registados nas listas posteriormente e não estavam convocados.

Esta situação acabou por ser discutida numa reunião do Conselho Geral da USF Descobertas, na noite de 25 de Fevereiro, que durou até às 22 horas. Perante os factos, e na sequência desta reunião, elementos do Conselho Geral apresentaram uma Carta Aberta onde defenderam que a secretária clínica não deveria continuar a desempenhar as funções de interlocutora administrativa durante o período em que decorrerem as averiguações relativas à alegada irregularidade na vacinação dos seus familiares. Nessa carta propuseram que fosse feita uma nova reunião para votar a destituição da secretária do cargo e a eventual eleição de novo interlocutor administrativo.

A reunião chegou a estar marcada para o dia 18 de Março, mas foi desconvocada pelo coordenador da USF  Descobertas, José Gomes, alegando que os factos ainda estão a ser averiguados e que não pode existir punição disciplinar sem a existência prévia de um processo disciplinar.

Sabe o PÚBLICO que está instalado um mal-estar na USF Descobertas porque, além da reunião ter sido adiada, a acta da reunião do dia 25 de Março ainda não foi apresentada, nem assinada pelos seus participantes. O PÚBLICO contactou a USF das Descobertas para obter esclarecimentos sobre esta eventual irregularidade na vacinação contra a covid-19,  mas não obteve qualquer resposta.

Já a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARS-LVT) limitou-se a dizer que “de acordo com Rafic Nordin, director Executivo do ACES Lisboa Ocidental e Oeiras, ao qual pertence a USF das Descobertas, a 12 de Fevereiro foram vacinados no Pavilhão da Ajuda 456 utentes, todos cumprindo os critérios de elegibilidade para a primeira fase de vacinação, segundo a orientação da DGS”.

E disse nada mais ter a acrescentar porque, “como foi amplamente divulgado, a Inspecção-geral das Actividades em Saúde (IGAS) está a promover auditorias e o Ministério Público (MP) também está a investigar casos de alegada administração indevida de vacinas contra a COVID-19”.