Na Hungria, Ikea e HBO apoiam campanha pela adopção por casais do mesmo sexo

As medidas do Governo de Viktor Orbán contra a comunidade LGBTQ têm originado vários protestos no país. Foi entretanto lançada a campanha Família é Família, que contou com o apoio inesperado de empresas como a Ikea e a HBO.

Foto
Reuters

Empresas como a Ikea e um restaurante com estrela Michelin assinaram uma campanha em defesa da adopção por casais do mesmo sexo na Hungria, trazendo uma resistência inesperada à repressão anti-LGBTQ do primeiro-ministro, Viktor Orbán.

A campanha Família é Família mobilizou até agora 140 empresas, bem acima das 40 de Fevereiro, em resposta às medidas tomadas por Orbán para proibir efectivamente a adopção por parceiros do mesmo sexo e consagrar na Constituição a ideia de que o casamento só é possível entre um homem e uma mulher. Entre elas encontram-se gigantes internacionais como a Levi Strauss & Co. e a HBO da WarnerMedia, bem como empresas locais de pequena e média dimensão.

A popularidade do movimento é surpreendente até mesmo para os seus organizadores, num país onde as empresas há muito que são cautelosas ao tomar uma posição contra Orbán. Primeiro-ministro da Hungria desde 2010, Orbán tem procurado consolidar o seu domínio sobre os tribunais e a sociedade civil, e está envolvido em confrontos com líderes da União Europeia alarmados com a sua viragem autoritária.

Foto

“Muitas pessoas têm medo, e muitas disseram-me para não apoiar esta campanha”, disse Hubert Hlatky-Schlichter, proprietário do Babel, um restaurante com estrela Michelin em Budapeste. Hubert vive com o seu companheiro e um dia gostava de ter um filho. “Não tenho medo de quaisquer sanções governamentais, mas honestamente isso apenas faria com que a campanha ressoasse mais. Não se trata de política, mas sim de direitos humanos.”

Durante anos, Orbán e os seus seguidores têm vindo a promover aquilo a que chamam valores cristãos conservadores. Com as acções contra a comunidade LGBTQ, tentam “aquecer” os seus eleitores antes das eleições de 2022, com as sondagens a mostrar que o primeiro-ministro, que já vai no quarto mandato, está atrás de uma oposição unida. Contudo, de acordo com um estudo realizado em Dezembro, a maioria dos húngaros está desconfortável, com muitos a rejeitá-lo por ter ido demasiado longe. Basta-lhes olhar para a Polónia, onde mais de 80 municípios se declararam zonas livres de LGBTQ, para ver aonde tais medidas podem levar.

É difícil prever o sucesso da campanha Família é Família. Grupos da sociedade civil críticos do Governo foram rotulados como agentes estrangeiros, enquanto uma universidade inteira foi expulsa por ter promovido uma sociedade aberta em conflito com a visão nacionalista de Orbán.

E o Governo tomou nota que vídeos associados à campanha arrecadaram mais de sete milhões de visualizações no TikTok e foram apresentados como parte de anúncios de serviço público no RTL Klub, o canal de televisão comercial mais visto na Hungria. A autoridade húngara para os media — liderada por um conselho cujos membros foram todos escolhidos pelo partido no poder — iniciou uma investigação aos anúncios, de acordo com o RTL Klub, uma unidade do gigante alemão dos media Bertelsmann SE. O regulador confirmou a notícia, mas recusou-se a comentar.

No passado, as empresas permaneceram em grande parte silenciosas quando o Governo impôs impostos especiais a sectores inteiros, ao mesmo tempo que estendeu generosos subsídios a empresas que firmaram uma aliança com a elite no poder. Os investidores colocam a Hungria em sétimo lugar a nível mundial no “favoritismo” dos funcionários governamentais, de acordo com o Fórum Económico Mundial.

“O Governo não gosta de encontrar resistência, e as empresas que se atravessam no seu caminho podem facilmente tornar-se alvos”, disse Attila Chikan, ex-ministro da Economia de Orbán e professor de negócios na Universidade de Corvinus, em Budapeste.

Chikan é também membro do conselho de supervisão da empresa húngara de energia Mol Nyrt. e da empresa farmacêutica Gedeon Richter Nyrt, ambas parcialmente detidas pelo Estado e que não fazem parte da campanha. De facto, embora o movimento esteja a crescer quase todos os dias — com personalidades do mundo do desporto e dos media e até embaixadas a darem voz —, há ainda uma empresa que falta. Nenhum dos 14 membros que compõem o principal índice da Bolsa de Budapeste, nem qualquer empresa controlada pelo Estado, assinou a campanha.

Marton Pal, um dos organizadores da campanha, espera que os números tragam alguma segurança para aquelas que o fizeram. A campanha não foi lançada até terem um grande grupo de apoiantes porque “é fácil escolher uma empresa, mas como se dispara contra mais de uma centena de alvos ao mesmo tempo?”.

Adrienne Feller Cosmetics, uma empresa familiar criada em 1999 que produz produtos de beleza e óleos essenciais numa pequena cidade a uma hora de carro de Budapeste, foi uma das primeiras a assinarem, e a resposta tem sido esmagadoramente positiva.

“Normalmente não aderimos a tais campanhas, mas apenas pensámos que o que está a acontecer na Hungria estava a tornar-se demasiado”, disse Madeleine Feller, chefe de marketing e filha do fundador. “Não se trata de política ou de se ser antigovernamental, trata-se de apoiar famílias de todos os tipos.”

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post