EMA desaconselha ivermectina contra a covid-19

Medicamento antiparasitas tem sido muito falado para prevenir ou tratar as infecções pelo coronavírus, mas as provas não sustentam o seu uso, diz Agência Europeia do Medicamento.

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Praga, na República Checa, comemora neste dia 22 de Março um ano de mortes pela covid-19, com uma cruz por cada vítima na Praça da Cidade Velha LUSA/MARTIN DIVISEK

A Agência Europeia do Medicamento (EMA) desaconselha o uso da ivermectina como forma de prevenção da covid-19 ou para o tratamento da doença. “Os dados disponíveis não dão apoio ao uso [deste medicamento antiparasitário] noutro contexto que não o de ensaios clínicos bem concebidos”, considerou a autoridade europeia do medicamento.

Este medicamento, já sem patente, tem sido muito usado em vários países da América Latina de forma profiláctica – faz até parte de um “kit de tratamento precoce” distribuído no Brasil, em conjunto com outros medicamentos como a hidroxicloroquina, outro antiparasitário, alguns antibióticos e suplementos como zinco e vitaminas C e D – e é usado por alguns médicos também em Portugal, que pressionaram o Infarmed e a Direcção-Geral da Saúde a avaliar a sua eficácia contra a covid-19.

O Infarmed, no entanto, já se pronunciou, em Março, através da sua Comissão de Avaliação de Medicamentos, considerando que não há provas que sustentem o uso da ivermectina profilaxia e tratamento da covid-19”.

Em outros países europeus aconteceu o mesmo com este medicamento, muito eficaz para tratar vários tipos de parasitas, desde o que causa a cegueira dos rios (oncocercose) até piolhos e sarna, entre outros. A pressão de médicos, entusiasmados com um manancial de estudos sobre a ivermectina e a covid-19 – que no entanto não são considerados de boa qualidade – acabou por levar a República Checa e a Eslováquia permitiram o uso temporário da ivermectina para a covid-19, salienta o comunicado da EMA divulgado nesta segunda-feira.

“A EMA analisou a mais recente evidência publicada de estudos laboratoriais, estudos observacionais, ensaios clínicos e meta-análises”, explica a nota de imprensa, que resume as conclusões.

“Os estudos laboratoriais concluíram que a ivermectina consegue bloquear a replicação do vírus SARS-CoV-2 (que causa a covid-19), mas com concentrações muito maiores do que as das doses autorizadas”, começa por enumerar. “Os resultados dos ensaios clínicos são variados, com alguns estudos a não mostrarem benefício nenhum e outros a relatarem alguns potenciais benefícios”. A maior parte dos estudos analisados são pequenos e tinham outras limitações, incluindo diferentes regimes de dosagem e o uso simultâneo de outras medicações”, diz a EMA.

A conclusão é, por isso, clara: “As provas actualmente disponíveis não são suficientes para apoiarem o uso de ivermectina na covid-19.” Apenas em ensaios clínicos o seu uso pode ser considerado, diz a EMA, sem fechar completamente a porta como aliás também tinha feito o Infarmed. São necessários mais estudos “bem concebidos e randomisados para chegar a conclusões sobre se este produto é eficaz e seguro na prevenção e tratamento da covid-19”, acrescenta a EMA.

Enquanto isso não acontece, a EMA recorda que a a ivermectina não é um medicamento inócuo, que pode ser tomado com a garantia de que não faz mal: “Embora seja geralmente bem tolerado nas doses autorizadas para outras indicações, os efeitos secundários podem aumentar com as doses muito maiores que seriam necessárias para obter as concentrações de ivermectina nos pulmões necessárias para serem eficazes contra o coronavírus.” Se for usada em doses superiores ao autorizado, “não pode ser excluída a toxicidade” deste medicamento.