Pinturas de Van Gogh pagaram cuidados médicos da irmã

As pinturas do artista não lhe permitiram ganhar dinheiro em vida, mas como mostra um novo livro de cartas, o seu legado permitiu que a irmã mais nova recebesse os cuidados médicos de que precisava.

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Um homem olha para um auto-retrato de Van Gogh no Museu Van Gogh de Amesterdão Reuters/PIROSCHKA VAN DE WOUW

A história é conhecida. Vincent van Gogh permaneceu sem um tostão ao longo da vida, que terminou em suicídio. No entanto, duas décadas depois, as pinturas que deu à irmã foram vendidas, acabando por pagar a prolongada estadia desta numa instituição psiquiátrica, de acordo com cartas publicadas num novo livro.

A mais nova das três irmãs de Van Gogh, Willemien, partilhava com ele a paixão pela arte e também lutava contra a saúde mental. Enquanto ele foi internado num hospital, depois de cortar parte da orelha, ela ficou internada quase 40 anos até à morte, em 1941.

Em 1909, a irmã mais velha, Anna, haveria de escrever sobre a venda de um quadro que Van Gogh dera a Willemien, permitindo que pagasse as despesas médicas ao longo dos anos. “Lembro-me quando Wil recebeu o quadro de Vincent, mas que figura! Quem teria pensado que ele contribuiria para a sustentação de Wil dessa forma?”, escrevia Anna para Jo Bonger, esposa do irmão de Van Gogh, Theo, negociante de arte que acreditava no talento de Van Gogh, num tempo em que eram raros os que tinham essa visão.

Depois de 1905, quando uma exposição de Van Gogh foi patente no Museu Stedelijk, em Amsterdão, os seus quadros já eram um sucesso. Na carta de 1909, Anna escreve sobre a venda das pinturas: “Theo sempre afirmou que acabaria por acontecer, mas que reviravolta imprevista e que resultados tão surpreendentes”.

Essa é uma das centenas de cartas nunca publicadas escritas pelas irmãs, amigos e familiares, que fazem parte do livro The Van Gogh Sisters . O historiador de arte holandês Willem-Jan Verlinden, autor do livro, citado pelo The Guardian, afirmou que as irmãs de Van Gogh tiveram que vender as pinturas que ele deixou. “À medida que a sua obra se tornava famosa, e os preços das pinturas subia, ele estava, de certa forma, a sustentar as irmãs, depois de morrer.”

As cartas fazem parte dos arquivos do Museu Van Gogh, em Amesterdão, e incluem também a correspondência da amiga de Willemien, Margaretha Meijboom, cujo irmão tinha também um histórico de problemas de saúde mental. Quando foi recebida a notícia que Van Gogh havia cortado a orelha e estava numa instituição, foi ela que consolou Willemien numa carta de 1888: “Aquele pobre sujeito, que terrível, tão doente, e ainda por cima, tão longe. Compreendo perfeitamente os seus sentimentos. Ir para um sanatório soa desagradável”, escrevia, concluindo que “os pacientes ali sofrem menos porque recebem o tratamento correcto.”

A 27 de Julho de 1890, Van Gogh deu um tiro no peito com uma pistola. Theo correu de Paris para Auvers e estava lá quando o irmão morreu devido aos ferimentos a 29 de Julho. Depois Willemien acabou num asilo em 1902, ali ficando metade da vida. Tinha 17 quadros que Van Gogh lhe havia oferecido a ela e à mãe. A sua venda foi utilizada para pagar todos os cuidados médicos.