Cancro do cólon: tratamento nos dias de hoje

Mês Europeu da Luta Contra o Cancro do Intestino. A importância de uma terapêutica continuada é fundamental nesta doença. Podem ser utilizados vários esquemas em diferentes fases da doença.

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"Mesmo em tempos de pandemia, não adie as suas consultas e exames" Rui Gaudencio

O cancro colorrectal é a doença mais comum na Europa e o terceiro cancro mais comum no mundo.

Planear um tratamento implica um parecer multidisciplinar, envolvendo uma equipa de profissionais médicos de diferentes especialidades. Consideramos que o tratamento deve ser centrado no doente como um todo, assim além dos oncologistas, cirurgiões e gastrenterologistas envolvidos no processo de diagnóstico e tratamento do cancro colorrectal, temos ao dispor dos doentes toda uma equipa de psicólogos, fisioterapeutas e nutricionistas que promovem um acompanhamento transversal mais adequado.

A abordagem da doença combina, geralmente, tratamentos que actuam no cancro a nível local, como cirurgia ou radioterapia, e os que actuam nas células malignas dispersas de forma sistémica (por todo o corpo), tais como a quimioterapia e a terapia biológica dirigida. O tratamento depende do estádio do cancro, das características do tumor e dos riscos para o doente.

O único tratamento capaz de curar o cancro colorrectal localizado é a cirurgia, visando remover o tumor principal. No que diz respeito aos casos de doença avançada, a cirurgia pode ser efectuada para remoção de lesões metastáticas.

Já a radioterapia tem como objectivo destruir as células tumorais através de radiação ionizante. É utilizada por si só, ou associada à quimioterapia (quimiorradioterapia), antes da cirurgia em estádios específicos do cancro rectal, procurando reduzir o tamanho do tumor antes da operação.

A quimioterapia também procura destruir as células tumorais. Pode servir para completar uma cirurgia curativa ou, nos casos em que a doença está num estado mais avançado (metastizado), pode ajudar a prevenir uma disseminação maior ou, até mesmo, atrasar a evolução da doença. Pode ser administrada por via oral ou endovenosa. A base da quimioterapia para este cancro são as fluoropirimidinas, quer como terapia única (designada por monoterapia), quer em associação com outros fármacos (designada por terapia combinada).

Nos últimos anos foram introduzidos no tratamento do cancro colorrectal a terapêutica-alvo, que consiste em medicamentos que inibem o crescimento das células tumorais.

Por um lado temos disponível um anticorpo monoclonal que se liga ao factor de crescimento endotelial vascular (VEGF), um factor de crescimento para os vasos sanguíneos e bloqueia-o, evitando a alimentação do tumor. Temos outros anticorpos monoclonais que actuam contra o receptor do factor de crescimento epidérmico (EGFR), uma estrutura na superfície de todas as células normais que as ajuda a crescer. A sua ligação ao EGFR interfere no crescimento das células tumorais, matando-as.

Existe também uma proteína de fusão recombinante que se liga ao VEGF circulante que inibe o crescimento dos vasos sanguíneos no tumor. E, ainda, uma terapia oral dirigida à parede celular que regula processos normais ao nível da célula, desempenhando também um papel fundamental na inibição do desenvolvimento e progressão dos tumores.

Mais, recentemente a imunoterapia adquiriu um papel importante no tratamento do cancro colorrectal metastático. É um tipo de tratamento que estimula o sistema imunológico para atacar e destruir as células malignas. Existem diferentes tipos de imunoterapia e todos eles apresentam benefícios importantes para um pequeno número de doentes, principalmente para os cerca de 5% cujos tumores têm alterações genéticas específicas.

Como se pode confirmar, já existem alternativas terapêuticas para o tratamento do cancro colorrectal. A importância de uma terapêutica continuada é fundamental nesta doença. Podem ser utilizados vários esquemas em diferentes fases da doença, com diferentes intensidades e alvos. Actualmente a sobrevivência global dos doentes com cancro do colorrectal varia de 91% para os estadios localizados a 14% nos estadios metastáticos, com média global de 63% aos cinco anos.

Apesar de nos dias de hoje podermos olhar com maior optimismo para o tratamento deste tipo de cancro — seja pela disponibilidade e conhecimento de equipas multidisciplinares, seja por toda a terapêutica disponível, não posso deixar de destacar que, para um tratamento com maior probabilidade de sucesso, não podemos descurar de um diagnóstico o mais atempado possível. Por isso, faço um apelo: mesmo em tempos de pandemia, não adie as suas consultas e exames, não deixe de se deslocar a uma unidade de saúde por medo da covid-19. Saiba que os hospitais seguem minuciosamente circuitos e protocolos de segurança. Se perante sinais de alerta como, por exemplo a presença de sangue nas fezes, não adie a ida ao médico.