Um percurso estimulante

Nos três anos que leva de liderança, Rui Rio transformou o PSD num partido dirigido como uma empresa zombie, esclerosada, burocratizada, com penalizações aos que “se portam mal”.

Rui Rio venceu as eleições para o PSD em 2018 com 22.728 votos, correspondentes a 54,1%, contra Santana Lopes, que obteve 19.244 votos, correspondentes a 45,85%. Uma diferença de 3484 votos, a segunda diferença mais curta nas oitavas eleições diretas do partido.

Só em 2008, quando da disputa entre Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho, se registou uma vitória apenas com uma margem de 3118 votos, mas nessa altura havia um terceiro candidato à liderança, Pedro Santana Lopes.

Em termos eleitorais, o seu mandato começou com derrotas pesadas: nas Europeias, na Madeira, onde o PSD perdeu a maioria absoluta, e nas legislativas. Conseguiu nas legislativas de 2019 um resultado de 27,7% para o PSD e a eleição de 79 deputados, o segundo resultado mais baixo de sempre alcançado pelo partido ao longo da sua história de grande partido estruturante do sistema político português.

Na altura afirmou que não tinha sido o desastre esperado, “que muitos previam e alguns até desejavam”, e garantiu que queria um PSD ao centro e que “Portugal precisa de um PSD livre, livre de interesses pessoais” e que o partido não podia ser tomado por “interesses pouco claros”.

Estaria a falar a sério? E de quem?

Até às legislativas de 2019, manteve uma relação muito tensa com a bancada social democrata, o que não ocorre hoje, uma vez que, aparentemente, os deputados não lhe são críticos, excepções feitas a Pedro Rodrigues e Álvaro Almeida, que até lhe eram próximos e se afastaram.

Nunca viabilizou um OE, mas absteve-se na votação do Orçamento Suplementar de 2020, em contexto de pandemia. Pelo caminho fez alguns acordos genéricos no primeiro mandato do governo de António Costa, em matéria de fundos comunitários e descentralização e, já neste mandato, estabeleceu entendimentos “informais”, em matérias como a das eleições dos presidentes das CCDR, o que constituiu uma vergonha.

Entretanto, em matéria de eleições autárquicas, PSD e PS entenderam-se e avançaram com um projeto para travar candidatos independentes. Apercebendo-se do erro, o PS deu sinais claros de recuar na intenção.

Desde a eleição de Rui Rio já se formaram três partidos políticos no espaço normalmente ocupado pelo PSD/CDS.

Novas regras de quotização, aprovadas no final de 2019 pelo Conselho Nacional, que já não permitem o pagamento de quotas por transferência bancária, mas sim por débito direto, como se a transferência bancária não fosse transparente. Saque ao militante. Mais castigos para o militante que ele tanto parece “desamar”, exceção feita à sua corte.

Entretanto, Rui Rio fez saber que nas campanhas autárquicas, concelhias e distritais, os candidatos terão de submeter à aprovação da Direção Nacional qualquer despesa que pretendam efetuar para desenvolver as respetivas campanhas.

Em Maio de 2019, Rui Rio envolveu-se numa polémica com a votação da proposta sobre a carreira dos professores. A deputada do PSD Margarida Mano terá recebido indicações para votar favoravelmente a proposta, mas depois terá havido indicações em sentido contrário. Rui Rio alegou ter existido “uma má interpretação”.

Em Maio de 2020, o PSD apresentou na AR uma proposta para revisão do funcionamento da mesma, onde propunha o fim da obrigatoriedade dos debates quinzenais com o primeiro-ministro. Nessa proposta, os debates só se realizariam com carácter de obrigatoriedade oito vezes por ano. Santa Oposição!

Para Abril e Maio de 2021, Rui Rio prometeu apresentar propostas para a reforma do sistema político e do sistema de justiça (que obsessão!).

A opinião quase unânime de comentadores, politólogos e jornalistas, no dia em que se assinalaram os três anos de liderança, é a de que ninguém conhece o seu projeto político. Para isso teria que haver debate de ideias dentro do partido, propostas inovadoras que pudessem mobilizar o eleitorado (e não deixar os jovens serem atraídos para soluções populistas, à esquerda e à direita), discussão aberta no partido e na sociedade. E não um partido dirigido como uma empresa zombie, esclerosada, burocratizada, com penalizações aos que “se portam mal”.

Pelo caminho, nestes três anos, definitivamente, ficou por cumprir o lema com que Rui Rio se apresentou a eleições internas no partido: “A política precisa de um banho de ética.” Viu-se, com alguns que lhe eram e são mais próximos a afundarem-se em confusões com a justiça.

Para um partido de Oposição é um percurso estimulante... aos olhos de António Costa.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico