Isolem-me que eu gosto

A culpa não é deles, que estão apenas a ser pessoas normais e eu, que cresci numa casa com cinco irmãos, sei bem o que é o barulho que conseguimos fazer à volta de uma mesa.

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"O outro hábito estranho é alguém tomar banho sistematicamente à meia-noite" Ava Sol/Unsplash

Estava tão sossegada. Até ao Verão passado eu estava tão sossegada em casa e nunca sequer me tinha apercebido disso. Desde então, as coisas mudaram e dou por mim a pensar, inúmeras vezes, sobretudo quando tento dormir e não consigo: alguém que me isole, por favor. Não, isto não é um texto sobre a pandemia.

Isto é um texto sobre ruído — e, sim, continua a não ser sobre a pandemia. Não sei se conhecem o ruído de que falo: não é aquele tonitruante que dá cabo da vida a algumas pessoas que, de um momento para o outro, vêem instalar-se na porta ao lado um bar que, ainda por cima, põe colunas à janela voltadas para a rua. Durante meses, anos, ouvi, em reuniões de câmara, as reclamações desesperadas de pessoas da Baixa do Porto, que, de repente, passaram de viver numa zona abandonada da cidade para estarem no centro da animação nocturna, rodeadas de bares, da sua música e das pessoas que preferiam ficar na rua a conversar, de copo na mão, prolongando o desassossego até o dia nascer. Quantas vezes dei por mim a pensar: como é que estas pessoas aguentam?

Mas não é disso que estou a falar. Estou a falar de, subitamente, o andar de cima deixar de estar ocupado por uma idosa silenciosa (ela era tão silenciosa e eu nunca me tinha apercebido disso, porque não ouvia barulho dali e, portanto, não pensava sequer no assunto) para passar a ser a casa de uma família normal.

É só isso. Uma família normal, com horários um bocado desfasados dos meus, é verdade, mas que, em geral, não anda aos berros e não põe música ou os programas de televisão em níveis que fazem mal aos tímpanos. E isso é que é doloroso, porque esta família normal está a dar cabo do meu sono, só por fazer coisas normais.

É certo que eles têm ritmos um bocado fora do habitual. Jantam, geralmente, depois das 21h30, altura que (bom para eles) costuma ser acompanhada de conversas e gargalhadas à mesa. E, depois, ficam calados durante um bom pedaço, recomeçando a sua actividade por volta das 23h, 23h30.

Ora, esta é, geralmente, a hora a que eu já cabeceei que chegasse no sofá e decido ir para a cama. Só que agora, em vez do silêncio bendito da velhinha que morava no andar de cima, as minhas tentativas para adormecer são, constantemente, interrompidas por gargalhadas (que bom para eles, a sério), a miúda adolescente a pedir com voz de mimo “pára, pára” ou a lamuriar-se (tudo mimo, nada de grave), “ó, mãe, olha ele” e, de vez em quando, a mãe a chamar pela miúda que está noutra divisão, o que faz ecoar o seu nome pela casa toda.

O outro hábito estranho é alguém tomar banho sistematicamente à meia-noite. E, reparem, não é um duche rápido. É encher a banheira, o que faz com que a água fique a correr durante bastante tempo, e depois fico a ouvir o chapinhar dos movimentos do corpo que ali se entretém em limpezas fora de horas. Há dias, houve uma variação: a banheira começou a encher-se pela 1h e a água era aberta regularmente (presumo que para a voltar a aquecer), até que o banho foi concluído pela 1h45.

É certo que, de vez em quando, há correrias desenfreadas pela casa, quando já é madrugada (mas é raro), e que agora a gata deu em miar (acho que já não deixam que ela entre nos quartos) e a dona acha que a melhor forma de a fazer calar é dizer o seu nome em voz alta quando, finalmente, a família vai para a cama (o que, já devem ter percebido, é algures durante a madrugada). Mas o ruído que acabou com o sossego das minhas noites é, habitualmente, o de conversas normais, o de televisões que não estão com o volume alto (mas que eu ouço) e da água a encher a banheira.

O que é que se faz perante isto? Pouco depois de se mudarem, houve uma manhã em que puseram a música altíssima, enquanto eu tentava trabalhar. Bati-lhes à porta e, sorridente, expliquei-lhes que o isolamento do prédio não era grande coisa, e que se pudessem ter um pouco mais de cuidado, era bom. A adolescente que me abriu a porta pediu desculpas e baixou o volume. Têm tido cuidado desde então.

Depois de uma semana em que as correrias nocturnas pela casa fora, acompanhadas de gritinhos animados, tinham sido mais frequentes, deixei-lhes um bilhete, pedindo, de novo, para terem um pouco mais de cuidado.

Agora, que direito tenho eu de lhes pedir que mudem a hora do banho? Ou que não se riam ou brinquem e se enervem uns aos outros, como é tão típico entre irmãos adolescentes? E posso proibir o gato de miar? Ou até pedir que deixem de varrer a sala (juro que ouço o deslizar da vassoura no chão da sala)?

Não posso, por muito que esta nova realidade me deixe com os nervos em franja e à beira das lágrimas nos dias em que, estourada, não consigo adormecer por causa da vida normal dos vizinhos do andar de cima.

Porque a culpa não é deles, que estão apenas a ser pessoas normais e eu, que cresci numa casa com cinco irmãos, sei bem o que é o barulho que conseguimos fazer à volta de uma mesa. A culpa é do prédio que não tem qualquer isolamento sonoro decente. Porque, se tivesse, eu não ouviria a vassoura a fazer o seu trabalho no chão da sala. Nem tinha ficado a saber os presentes que a dona da casa ia oferecer no Natal porque não a teria ouvido a contar essa novidade à familiar que lhe telefonou.

Tudo o que queria era que alguém me isolasse do ruído que vem da casa de cima. Ou melhor, que quem construiu o prédio tivesse pensado que valia a pena investir um pouco mais no isolamento das habitações. Aqui já não deve haver nada a fazer, mas se há construtores por aí, façam de conta que vos estou a gritar aos ouvidos: a sério, invistam no isolamento contra o ruído. A sanidade mental dos futuros moradores agradece.