Ainda a propósito de Os Maias...

Ler Eça com “lentes actuais” é não apenas positivo como também o resumo de tudo o que muitos têm tentado fazer nos últimos anos. Todavia, é igualmente preciso que essas “lentes actuais” tenham suficiente amplitude e distância para permitir ver, para lá do cego deslumbramento de quem julga olhar pela primeira vez o mundo acabado de criar, um outro tempo, outras vozes, outros modos de pensar.

A polémica em torno de Eça de Queirós e do alegado “racismo” patente em Os Maias merece mais do que simples notas em jeito de comentário. A polémica surgiu a propósito da tese que uma doutoranda da Universidade de Darthmouth, Vanusa Vera-Cruz Lima, está a desenvolver mas mereceu desde já a atenção mediática. Para entrar em discussão, seria necessário conhecer a tese, tê-la lido atentamente, de forma isenta, aberta e despreconceituada, ponderar os argumentos invocados e o rigor científico da argumentação. Assim como pressupõe, quer por parte de quem defende uma tese sobre Eça de Queirós quer de quem avalia essa tese (júri) e, de um modo geral, dos leitores, um conhecimento sério do autor em questão que vai muito para além da leitura de uma única obra. De outro modo, estamos perante opiniões que cientificamente valem o que valem. A questão suscita-me alguns comentários breves, de natureza diversa:

1. A primeira, de natureza académica: tendo em conta o debate público surgido a respeito desta tese (ainda não defendida no lugar próprio, a Universidade de Darthmouth, pelo que li), pergunto-me se a originalidade do trabalho no momento da sua apresentação e discussão públicas não estarão comprometidas. Porque seria importante saber se esta discussão mediática não será um meio de favorecimento da candidata (ao fornecer-lhe feedback para aferir, aduzir ou rasurar argumentos, mas também por lhe permitir um ensaio privilegiado de discussão antes da prestação de provas públicas), feedback e ensaio esses que não são facultados a outros doutorandos nas áreas das Humanidades ou noutras áreas científicas. Como seria igualmente importante saber se as Universidades que tanto prezam as “patentes” e a “propriedade intelectual”, que exigem um registo do tema da tese e o respectivo pagamento no acto de inscrição em doutoramento, assim como a “originalidade” do trabalho submetido a provas públicas, deixaram ou não cair essa prática. E, por último, se toda esta discussão pública pode ou não constituir uma forma de pressão e de influência sobre o júri.

2. A segunda questão é de natureza científica (implicando várias questões). Pelas afirmações vindas a público por parte da investigadora, não se trata de afirmar que Eça de Queirós tenha sido ou não “racista” (reconhecendo que seria necessário ler outros escritos de Eça e conhecer melhor o autor para chegar a essa conclusão), mas tão somente de destacar algumas afirmações racistas contidas num romance como Os Maias. A investigadora cita, em particular, afirmações de Ega como esta retirada do Cap. IV: “Nós julgamo-nos civilizados, como os negros de São Tomé se supõem cavalheiros, se supõem mesmo brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patrão.” Sem querer discutir o conteúdo da afirmação, gostaria de, em termos estritamente literários, sublinhar a confusão que parece existir entre conceitos tão distintos, mas operativamente fundamentais, como autor empírico, autor textual e personagem, pelo que isso implica em termos de ficcionalidade, da responsabilidade enunciativa e do ponto de vista.

Do mesmo modo, o conceito de ironia (e de auto-ironia) estruturante de toda a ficção queirosiana (como Mário Sacramento mostrou há muitos anos atrás em Eça de Queirós. Uma estética da ironia), ou o recurso à caricatura, a “vis” cómica de Eça, corroendo o discurso das personagens e subvertendo interpretações literais, não parecem ser tidos em conta na leitura de um texto que é genologicamente um romance. António Carlos Cortez, em “Os Maias, o racismo e a visão estreita das coisas” (PÚBLICO, 09.03.2021), chamava, de resto, a atenção para a necessidade de não se perder de vista que “o processo da ironia traduz uma visão do romancista que é, no mínimo, refractária ao racismo de que se pretende acusar o autor de Os Maias”. É deste processo que decorre a visão caricatural que encontramos no final de um romance em que tanto Ega como Carlos da Maia surgem aos olhos do leitor como “falhados” na vida (“Falhámos a vida, menino!”, dirá Ega), ambos conscientes de que nada vale a pena mas correndo paradoxalmente para apanhar o “americano”.

Argumentos como o da “idealização da branquitude” por parte de Eça (ou de Ega), nomeadamente quando ele se aplica à idealização de personagens femininas, carece de uma contextualização sobre o ideal europeu de beleza na época – discutível, por certo, como todas as criações humanas, mas que era então para muitos autores (entre os quais Eça) um sinónimo de burguesia e de afastamento do mundo rural (Cesário, por exemplo, há-de lamentar dolorosamente a morte da irmã quando a família Verde chega ao campo, fugida da epidemia de cólera na cidade: “E antes tu, ser lindíssimo, nas faces/tivesses ‘pano’ como as camponesas:/ e sem brancuras, sem delicadezas, /vigorosa e plebeia, inda durasses!” A oposição aqui é entre burguesia e povo, cidade e mundo rural e não tanto uma questão “racial”.

Quem ler Eça, defrontar-se-á com a oposição entre Civilização e Natureza que, tematizada de diversas formas, atravessa a sua obra, incluindo muitos dos seus textos políticos, ensaísticos ou correspondência, apontando para uma leitura que vai muito para além de simples dicotomias. No conto “A Perfeição”, Ulisses enfastia-se na ilha de Ogígia onde tem tudo o que um homem alegadamente “civilizado” pode desejar, desde os braços de uma deusa, a abundância da mesa e a promessa da imortalidade, para abandonar tudo e seguir viagem. No final de O Crime do Padre Amaro, um cínico padre afirma “já as não confessar senão casadas” e o leitor espanta-se da obtusidade de um político como o Conde de Ribamar, incapaz de ver a decrepitude do Chiado e do país. Em A Ilustre Casa de Ramires, Gonçalo Mendes Ramires vê-se a braços com a escrita da novela (aliás meio plágio) que lhe há-de assegurar a notoriedade pública e o lugar de deputado, esse “triunfo pelo qual tanto almejara, por que tanto sabujara. Deputado! (...). E ante esse resultado, tão miúdo, tão trivial, – todo o seu esforço desesperado, tão sem escrúpulos, lhe parecia ainda menos imoral que risível. Deputado! Para quê? Para almoçar no Bragança, galgar de tipóia a ladeira de S. Bento, e dentro do sujo convento, escrevinhar na carteira do Estado alguma carta ao seu alfaiate, bocejar com a inanidade ambiente dos homens e das ideias, e distraidamente acompanhar, em silêncio ou balando, o rebanho de S. Fulgêncio, por ter desertado o rebanho idêntico do Brás Vitorino. Sim, talvez um dia, com rasteiras intrigas e sabujices a um chefe e à senhora do chefe, e promessas e risos através de redacções, e algum discurso esbraseadamente berrado – lograsse ser ministro”. Ora é um deputado com este perfil que no final da obra irá partir para África e defender a causa do Colonialismo. A ironia queirosiana pode relativizar, gerar ambiguidades, desconstruir leituras definitivas. Sejam elas quais forem.

3. Não será difícil encontrar na obra de Eça de Queirós muitos dos temas em contra-corrente com a agenda da contemporaneidade. Rever e, sobretudo, reler essas obras à luz de novas molduras teóricas é seguramente uma prova de vitalidade e de resistência da escrita ao tempo e do seu poder de interpelar o leitor. Racismo, orientação sexual, misoginia, violência doméstica, tudo isso está lá, como estão a visão crítica e o desafio a tabus como o incesto, o celibato dos padres, a vacuidade intelectual da elite dirigente. 

Em declarações à agência Lusa, o vice-presidente da Associação dos Professores de Português, Luís Filipe Redes, disse não ser precisa “uma análise muito profunda para compreender os preconceitos raciais presentes em Os Maias e em outros textos de Eça”. Mas a análise que tem de ser feita (e é bom que seja feita) deve pautar-se pela seriedade e pelo rigor, evitando incorrer em dogmatismos ideológicos e apriorísticos estereotipados, pelo conhecimento efectivo da obra, dos modos de funcionamento e das estratégias discursivas do texto narrativo, bem como do contexto histórico e cultural que coube ao cidadão e autor viver e não pode ser rasurado. A história não pode ser apagada sem comprometer o futuro que queremos construir.

A investigadora afirma ser necessário ler o autor com “lentes actuais” e isso é não apenas positivo como também o resumo de tudo o que muitos têm tentado fazer nos últimos anos. A Cidade e as Serras é um bom exemplo de revisão crítica a que têm sido sujeitos muitos dos textos de Eça. Todavia, é igualmente preciso que as “lentes actuais” não desfoquem o que foi o contexto da época. Que tenham suficiente amplitude e distância para permitir ver, para lá do cego deslumbramento de quem julga olhar pela primeira vez o mundo acabado de criar, um outro tempo, outras vozes, outros modos de pensar, outras concepções da história e do romance, com a humildade sábia de quem, hoje como ontem, não será nunca detentor da verdade. Também aqui o distanciamento pode ser aconselhável.

4. Um comentário final para o modo como os media dão palco a tudo o que seja um tema fracturante ou de moda. Nada contra, até porque considero a discussão importante e legítima. A não ser quando trabalhos de mérito reconhecido no campo dos estudos queirosianos, construídos ao longo de uma vida de trabalho, como os dos professores Carlos Reis ou Isabel Pires de Lima, mas também de Orlando Grossegesse ou Irene Fialho, entre muitos outros em várias partes do mundo, ficam no limbo, raramente merecendo uma linha de atenção. Veja-se a última lição de Carlos Reis. É este silêncio que me parece lamentável.