No mundo real existem muitos lobos maus

O vírus esfrega as mãos, desmultiplicando-se em novas variantes e aproveitando que milhares de pessoas não serão vacinadas enquanto esta vacina não for reposta em circulação, para infectarem os seres humanos.

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"O medo é pólvora de rastilho curto em floresta seca" LUSA/RUNGROJ YONGRIT

Não acredito em histórias da carochinha, apesar de adorar o imaginário de fantasia infantil.
Mas no mundo real existem muitos lobos maus, infelizmente.

No mundo real, actualmente, existe uma pandemia que já dura há uma eternidade em tempo psicológico, apesar de cronologicamente ter começado há pouco mais de um ano.

Aprendemos palavras novas que preferíamos desconhecer, como ‘confinamento’, ‘distanciamento social’, entre outras.

Nós, médicos, trabalhamos disfarçados de astronautas desde então, a empatia da relação médico/doente mais difícil de praticar, as doenças não-covid a engrossarem listas de espera... Todas as pessoas se adaptaram a rotinas e a sacrifícios incómodos mas indispensáveis para tentar ganhar a luta contra o coronavirus, as máscaras a taparem os sorrisos, os convívios a serem memórias do passado...

Muitos transformaram-se em doutorados em covid, as opiniões a pulularem pelas redes sociais e a confundirem tantas pessoas. Piores que os doutorados, surgiram os negacionistas, que agarrados ao seu egocentrismo se recusaram a acreditar que esta peste é verdadeira, e apelando aos valores da liberdade se tornaram obstáculos na prática de medidas preventivas que, acredito, ninguém é masoquista a ponto de gostar de as fazer.

A pandemia descontrolou-se após a época natalícia, e nós, portugueses, fomos notícia por motivos tristes.

Quando a tempestade começa a amainar, o desconfinamento prudente a combinar com o ar primaveril, levando a que os meninos pudessem voltar às escolas, e surgindo a esperança numa mínima normalidade, com o plano de vacinação a ganhar velocidade entre os mais vulneráveis e a incluir professores, vem o tsunami das reacções a uma determinada vacina a porem tudo em causa.

Porque existem os lobos maus? As grandes potências económicas a digladiarem-se pela cota de mercado de um negócio que vai render valores incalculáveis e ininteligíveis para nós, comuns dos mortais que apenas tínhamos reposto a nossa esperança na distribuição célere de vacinas pelos seres humanos, a luz no fundo do túnel da imunidade de grupo a deixar de ser miragem.

E os lobos maus desconhecem a palavra Humanidade de grupo? Pelo contrário, regem-se pelos valores do lucro, utilizando quaisquer meios sejam ou não eticamente correctos, para atingir os seus fins. É verdade que existiram efeitos adversos com uma vacina de um laboratório anglo-sueco, mas foram de tal forma empolados que geraram o pânico e semearam o medo relativamente a uma vacina que foi administrada a milhões de pessoas. O medo é pólvora de rastilho curto em floresta seca. Já se disseminou por vários países e levou à suspensão (temporária, como o tempo o dirá) da vacina anglo-sueca, atrasando as metas de vacinação, irremediavelmente.

Uma coisa é precaução: retirar um lote, avaliar ponderadamente os efeitos laterais e a sua proporção relativamente à ocorrência na população. E fenómenos tromboembólicos existem também, em números não desprezíveis, com os anticoncepcionais orais que milhões de mulheres tomam todos os dias, por exemplo, e ninguém está muito preocupado com isso...

Outra coisa é o tsunami do medo, que vai ter repercussões também nas pessoas que vão voltar a desconfiar, não só desta vacina (que será reposta, não duvido, não sou perita mas vários experts já vieram a público frisar a sua segurança), mas das vacinas anti-covid em geral, as correntes anti-vacinais unidas em lobby com os negacionistas a aproveitarem este recuar para avançarem com as suas teorias de conspiração.

Entretanto, o vírus esfrega as mãos, desmultiplicando-se em novas variantes e aproveitando que milhares de pessoas não serão vacinadas enquanto esta vacina não for reposta em circulação, para infectarem os seres humanos.

Ainda acredito na Imunidade de grupo, mais mês menos mês. Na Humanidade de grupo... ainda acreditam?