Enxaqueca: “É ter o coração a bater na cabeça” e “só percebe quem tem”

Afecta três vezes mais mulheres do que homens. Estima-se que 1,5 milhões de portugueses sofram desta doença incapacitante.

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A presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias, Elsa Parreira, explica que a enxaqueca pode ser descrita como uma dor pulsátil, em metade da cabeça UNSPLASH/Ivan Aleksic

Madalena Plácido não se lembra da sua vida antes da enxaqueca. Faz parte dos cerca de 1,5 milhões portugueses que sofrem desta patologia — segundo dados da Sociedade Portuguesa de Cefaleias. É muito “mais de que uma dor de cabeça”, “não existe compreensão” e — pior — não existe cura para esta dor incapacitante, que afecta três vezes mais mulheres do que homens.

Tinha apenas dez anos quando teve a primeira crise de enxaqueca e não percebia “o que estava a acontecer”. “Com o aparecimento da menstruação, começou a intensificar-se. “Chegaram a ser 15 dias por mês”, recorda Madalena Plácido ao PÚBLICO. Ou seja, se em média sofria de enxaqueca metade do mês, significa que metade do seu ano era passado com esta dor incapacitante.

Agora, aos 28 anos, graças a uma terapêutica adequada, está numa fase controlada da doença, com cerca de cinco crises por mês. “Não sei o que é viver sem a enxaqueca e o receio dela aparecer”, testemunha a farmacêutica, que é presidente da MIGRA — Associação de Doentes com Enxaqueca e Cefaleia, fundada em 2019.

Mas o que é afinal uma enxaqueca? “Pode ser descrita como uma dor pulsátil, em metade da cabeça”, começa por explicar a presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias, Elsa Parreira. A dor, garante a neurologista, “não tolera quaisquer estímulos”, “piora com os movimentos” e é incapacitante. Sabe-se que terá “uma forte componente genética”, mas “ainda não sabemos o que provoca”, nem existe uma cura. Sabe-se, sim, destaca a especialista, que “o cérebro das pessoas com enxaqueca é mais sensível aos estímulos”.

Madalena Plácido conta que, com o tempo, se vai percebendo os estímulos que poderão desencadear uma crise e os primeiros sintomas. São eles, o cansaço extremo, dificuldade de concentração, lentidão no pensamento. Depois quando chega a dor, surgem as náuseas, os vómitos, a intolerância à luz, aos cheiros e ao movimento. “É ter o coração a bater na cabeça e não nos conseguimos habituar à dor”, descreve a doente. Nesses momentos, refugia-se no escuro, em silêncio.

Em todos os “momentos decisivos”, há “um receio de ter uma crise”, desabafa a presidente da MIGRA. “No dia do meu casamento, a minha única preocupação era ter enxaqueca”, conta. Não se inibe de participar em tudo, mas todo o planeamento dos seus dias gira em torno da enxaqueca. “Só percebe quem tem”, lamenta.

A psicóloga clínica, Sofia Andrade, assinala o “impacto muito grande” que a enxaqueca causa na saúde mental. Grande parte dos doentes, tal como Madalena Plácido, não se sentem compreendidos e isso, destaca, “é muito doloroso para o próprio”. O apoio psicológico é então muito importante para evitar um “quadro severo” de depressão, ansiedade e, no limite, explica a especialista, o suicídio.

O facto de a enxaqueca ser uma doença incapacitante gera sentimentos de culpa, observa Sofia Andrade. “Não posso viver isto porque não sou compreendida”, exemplifica a psicóloga. Este sentimento tem repercussões na auto-estima, leva frequentemente ao isolamento, “compromete a capacidade de sonhar e pensar no futuro”.

O doente entra então num ciclo vicioso. Entra num estado depressivo por “não ser escutado” e pela própria dor aguda, e é esse próprio estado que incentiva uma nova crise. Sofia Andrade explica então que “o mais importante” é “ir ao significado da dor” e trabalhar a partir daí — perceber “o padrão da própria história da enxaqueca”, “as emoções e memórias”, responsáveis pelos “pensamentos intrusivos”, causadores de “bloqueios e descargas de hormonas”, que “disparam a dor”.

Uma doença de mulheres?

Estima-se que a enxaqueca afecte três vezes mais mulheres do que homens, a partir da puberdade. A neurologista do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, na Amadora, Elsa Parreira, explica que a doença está “fortemente ligada às hormonas sexuais femininas”. Há mulheres que só têm enxaqueca na menstruação ou quando baixa o nível de estrogénio. Na gravidez e na menopausa há, normalmente, uma considerável melhoria da patologia.

A presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias assinala também a influência da contracepção hormonal, que, frequentemente, “piora” as crises de enxaqueca. Madalena Plácido — farmacêutica de profissão — sugere duas alternativas para esta situação: a toma de pílula continua, que evita a variação hormonal, ou a escolha por métodos contraceptivos não hormonais.

Mas a enxaqueca está longe de ser uma doença apenas de mulheres e afecta 1,5 milhões de portugueses — ou seja, 15% da população. Madalena Plácido e Elsa Parreira deixam algumas dicas que podem ajudar quem sofre desta dor incapacitante. O principal conselho é manter as rotinas, “já que a enxaqueca é muito amiga de rotinas”. Por isso, deitar regularmente no mesmo horário e respeitar as horas necessárias é importante.

O mesmo se aplica às refeições que, além de obedecerem a hábitos saudáveis, deverão ser feitas quase sempre à mesma hora. Beber muita água e praticar exercício são também dois aliados no combate à enxaqueca. Elsa Parreira sublinha ainda que, se possível, se evite o stress e vigie os factores desencadeantes.

Uma vez instalada a crise de enxaqueca, é fundamental agir nos primeiros sintomas e fazer a medicação. Depois, procurar repousar num local escuro, sossegado, sem barulho e luz. Aplicar compressas frias na cabeça também pode ajudar. Madalena Plácido conclui com o conselho de “não lutar contra”, já que a tendência é “não querer que a doença tome conte da nossa vida”, mas “é importante descansar” e o resto pode esperar.