Governo vê Portugal com vantagens para ter fábrica de baterias da Volkswagen

“Mantemos contactos próximos com a VW sobre diversos assuntos (...) e estamos convictos que Portugal apresenta vantagens”, diz o Ministério da Economia.

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Thomas Schmall, administrador responsávek pela tecnologia, diz que Portugal é uma hipótese apara uma fábrica de baterias da Volkswagen Volkswagen

Quem conhece a Volkswagen (VW) como um poderoso fabricante de carros vai ter de se habituar a pensar de outra maneira. “Com a nova estratégia, o core business da Volkswagen vai passar a ser as baterias eléctricas”, diz o administrador responsável pela tecnologia no grupo germânico, que ontem apresentou um plano de transformação que poderá incluir uma fábrica de baterias em Portugal.

Thomas Schmall, chief technology officer (CTO), revelou que a VW quer ter seis “gigafábricas” na Europa. Duas delas já têm orçamento, localização (Suécia e Alemanha) e calendário (2023 e 2025). A terceira está planeada para 2026 e, segundo aquele administrador do grupo germânico, pode ficar em Portugal, em Espanha ou em França. “Tudo vai depender das condições que encontrarmos em cada uma das opções”, frisou.

O Ministério da Economia diz que acredita no potencial de Portugal. “Mantemos contactos próximos com a VW sobre diversos assuntos de interesse para a empresa e o país e estamos convictos que Portugal apresenta várias vantagens para o acolhimento de investimento industrial”, afirma fonte oficial do ministério de Pedro Siza Vieira, numa resposta enviada por escrito ao PÚBLICO e que acaba por não confirmar se há contactos sobre este assunto com o grupo alemão. 

O anúncio foi recebido com alguma surpresa, mesmo nos corredores da fábrica portuguesa da VW, a Autoeuropa, em Palmela. Afinal, não havia sinais de que Portugal estivesse na corrida. Até porque 11 dias antes desta apresentação, o presidente-executivo do fabricante alemão tinha estado na Catalunha, ao lado do rei de Espanha e do primeiro-ministro espanhol, para o anúncio da criação de uma parceria público-privada que serviria para ali produzir baterias eléctricas.

Três dias antes desse anúncio em Espanha, feito a 4 de Março, o director-geral da fábrica portuguesa da VW até dizia, num comunicado, que era preciso “encontrar argumentos” para competir com a “concentração de capacidade produtiva existente no Centro da Europa e particularmente no Norte de Espanha”.

E, três dias depois, a 7 de Março, o próprio primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, publicou um artigo no jornal El País em que explicava que aquele consórcio, envolvendo Seat (do grupo VW), governo, Iberdrola e outras empresas, seria o primeiro grande projecto do Plano de Recuperação e Resiliência de Espanha. Ou seja, nada está assegurado.

Fausto Dionísio, presidente da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa, confirma que é um cenário novo. “Nunca ouvi falar disso. O cenário apontava para passarmos à electrificação só lá para 2030, até porque entretanto surgiu o anúncio em Espanha e o Governo português não tinha ainda mostrado abertura para um projecto destes”, afirma.

Porém, segundo o CTO do grupo alemão, a hipótese existe e a análise vai continuar nos próximos meses. “Temos metas financeiras, que queremos respeitar, mas se for crítico e necessário aumentar o nosso envolvimento financeiro na produção de baterias, também seremos capazes de rever os números. Os próximos meses serão determinantes”, frisou.

“Precisamos de um círculo, com a VW, os governos e parceiros externos. Não podemos fazer tudo sozinho”, acrescentou ainda. 

A quarta fábrica deverá nascer no leste da Europa em 2027. “Nesta altura, ainda não sabemos se será na República Checa, na Polónia ou na Eslováquia”, sublinhou. “Estamos a analisar [as hipóteses] com os governos, com parceiros, com a Comissão Europeia para identificar onde ficará melhor.” O plano inclui mais duas, para 2030, mas sem localização definida por agora. Cada “gigafábrica” terá uma capacidade de produção anual de 40 GWh. 

As declarações de Thomas Schmall sugerem que, se o Governo português estiver interessado, terá de se entrar numa fase de contactos sobre este tema. É certo que a Autoeuropa não constrói ainda modelos electrificados, mas também não é assim tão estranha ao assunto, visto que produz componentes para eléctricos montados noutras fábricas.

Por outro lado, o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) de Portugal, que esteve em discussão pública até 1 de Março, também abre a porta à criação, com Espanha, de uma fileira industrial dedicada ao lítio, usado em baterias para carros. Aproveitar-se-ia assim as jazidas próximas à fronteira e a capacidade industrial e científica, atestada pelo próprio Instituto Ibérico de Nanotecnologia (pertencente aos dois países), que está a desenvolver projectos de criação de células de última geração.

O PRR português refere ainda que seria fácil instalar nas regiões de fronteira unidades de reciclagem, um tema que também faz parte da estratégia de transformação da VW apresentada ontem. 

A VW foi o segundo maior vendedor mundial em 2020. Vai apostar numa bateria de célula única, que chegará ao mercado em 2023, e que servirá 80% da oferta comercial em 2030. Isso permitirá reduzir até 50% os custos de produção destas unidades para os segmentos de entrada, e até 30% nos de grande volume. Com recurso ao fosfato de ferro, manganês, níquel ou grafite, a VW acredita que terá baterias mais eficientes, capazes de, a partir de 2025, serem carregadas em 12 minutos para uma autonomia de 450 quilómetros.

A infra-estrutura para carregar, diz Thomas Schmall, continua a ser um desfio. O grupo tenciona multiplicá-la por cinco, para 18.000 postos, até 2025, na Europa, até porque acredita que a quota de vendas dos eléctricos vai passar de 30% para 60% com a ajuda do Green New Deal (Pacto Ecológico Europeu) proposto pela Comissão Europeia. A VW destina 400 milhões de euros para tal investimento, parte do qual será feito no consórcio Ionity e outra parte com parceiros específicos em Itália, Espanha e Reino Unido.