Psicadélicos e Pandemia: parte I

A propósito do lançamento do www.safejourney.pt — uma plataforma digital sobre psicadélicos em Português, para portugueses.

Discutir psicadélicos no momento em que lutamos pela sobrevivência, por manter-nos à tona? Desvario mais que certo de alguém fechado em casa há demasiado tempo, dirão. Pois bem, porque é que discutir psicadélicos é uma boa ideia, no geral e agora, em particular?

Há 13 anos comecei a colaborar num serviço de emergência psicológica para utilizadores de psicadélicos (sobretudo MDMA e LSD), num grande festival de música electrónica em Portugal. Durava pouco mais de uma semana cada dois anos, mas bastou para mudar a minha vida. Recebiam-se ali pessoas muito alteradas. Ainda estavam sob o efeito daquelas substâncias, acabadas de usar, e poderiam ficar ao nosso cuidado horas, dias. Os seus sintomas eram variados, mas o mais frequente era a alteração da percepção do mundo e da realidade comuns, e da comunicação com o outro. Estavam assustadas com a força dos efeitos dos químicos sobre o corpo, sobre a mente, sobre os afetos e temiam ficar presas naquele estado terrível. Se tivessem crítica. Porque, não raramente, estavam tão desligadas da realidade, o conteúdo da sua experiência era tão impartilhável, que voltar ou não da viagem era a menor das suas preocupações. Tudo isto se agravava quando eram pessoas vulneráveis à doença mental — podiam sabê-lo ou não, vivendo nesse caso ali mesmo, à nossa frente e em tempo real, um primeiro surto psicótico. Cuidávamos delas duma forma que não cabe explicar dentro de padrões convencionais porque, infelizmente, nos tornámos cínicos e nos habituámos a olhar com desconfiança e descrença tudo o que acontece de forma espontânea, autêntica, humana, bondosa (sim...), gratuita. Ao longo dos anos fomos aprendendo a juntar a esse esforço um rigor técnico e científico cada vez mais robusto.

O que fomos percebendo foi que, naquele exato momento, uma preciosa janela de oportunidade parecia abrir-se sobre a biografia dos nossos visitantes, que se impunha sobre todo o terror que viviam. Não tinham escolhido esse desafio. Compraram um bilhete para um festival de música electrónica e tinham procurado puxar essa experiência ao limite com o propósito de se divertirem — mais do que legítimo. No entanto, recebiam de volta o trauma da violência escondido nos confins, guardado tantas vezes na memória do corpo e a explodir em cada fibra ali à nossa frente, com mais vigor do que conseguiam conter uns quantos homens robustos da equipa. Recebiam de volta a tristeza pelas pessoas perdidas, pela infância perdida, pelos sítios perdidos, pela felicidade perdida - e não podiam escolher fugir à tristeza esmagadora dessa perda porque os químicos não deixavam. Recebiam de volta a raiva pelo desencontro com pessoas próximas a quem não era possível dar nem receber nada de volta, porque o lugar do amor autêntico e incondicional tinha sido ocupado pela dúvida, pela mágoa, pelo ressentimento. Recebiam de volta outra explosão — a dos desejos inconfessáveis que, por aquele instante, não tinha sido possível deixar bem escondidos e presos na potente censura das convenções da vida comum. Esses desejos aproveitavam a mãozinha dos químicos e deixavam-se puxar para fora, como a água que jorra por uma fenda aberta num dique, aos borbotões.

O nosso trabalho era criar a atmosfera de cuidado, de encontro e de segurança que permitia que tudo isto se desenrolasse sem consequência maior, até que os químicos se diluíssem pelos meandros das conexões nervosas permitindo àquelas pessoas regressarem inteiras ao lado de cá. Intuíamos que podiam, até, estar um pouco mais inteiras do que antes de tudo ter começado, por terem adicionado mais uma peça ao enigma incompleto que é sempre a consciência de um ser humano — podia ser que os psicadélicos lhes tivessem trazido isso, mesmo sem o pedirem.

Quando comecei neste trabalhado privilegiado ainda não se falava em renascimento psicadélico. Esse termo só começou a ser usado algum tempo depois, para referir de forma feliz e sucinta o ressurgimento da investigação sobre o potencial terapêutico dos psicadélicos, levianamente interrompido nos anos 60 no rol de disparates da Guerra às Drogas. Então, de um momento para o outro, começaram a multiplicar-se os exemplos de ciência, daquela feita por departamentos e investigadores de reputação inquestionável, com escrutínio e métodos imaculados. Parecia inacreditável: ciência que mostra que os psicadélicos podem ajudar no luto, no trauma, podem ajudar a chegar à liberdade da vida cativa das dependências. Evidência de que podem ajudar na ansiedade paralisante, do tipo que impede as pessoas de funcionar perante o menor dos entraves do quotidiano. Evidência de que podem ajudar na depressão, que vem uma vez e outra, sem que nada na vida justifique tanta tristeza. Daquela que fica e insiste depois de um cocktail diferente, de uma terapia nova... Depressão daquela que, mantendo-se ali, viva e cortante, arrasta tantas vezes as suas vítimas para a derradeira desesperança.

Para as pessoas que faziam, como eu, aquele trabalho privilegiado, nenhuma destas possibilidades trouxe grande surpresa. Já sabíamos que era assim só que não tínhamos como mostrá-lo. O encontro com as nossas pessoas era intenso, mas fugaz. Não nos competia metermo-nos na sua vida, fazer perguntas e perceber o que tinha acontecido depois. Mas a ciência psicadélica podia fazê-lo, porque a sua proposta é outra, apesar dos benefícios poderem ter semelhança indiscutível com o nosso trabalho. A ciência psicadélica sobre o potencial terapêutico do LSD, do MDMA, da ayahuasca ou da psilocibina proporciona aos seus participantes uma experiência controlada. Isto significa que as pessoas escolhem sujeitar-se aos produtos para aquele propósito, são preparadas e partilham informação relevante da sua história pessoal. Clarifica-se o seu diagnóstico, antecipam-se todas as dúvidas e oferecem-se esclarecimentos sobre o que vai acontecer, antes que aconteça. Os produtos que usam são cuidadosamente preparados, não havendo lugar a combinações perigosas e limitando-se o risco de efeitos imprevisíveis devido a sobredosagem ou adulteração — os bichos-papões do consumo recreativo nos dias de hoje. Para a sua viagem são acolhidas no tal sítio caloroso, seguro e atento, um pouco antes de receberem o químico que vai levá-las pela mão. É o mesmo sítio, povoado das mesmas presenças que vão lá estar depois, quando for altura de ajudá-las a trazer luz sobre tudo o que aprenderam sobre si, com brandura, compaixão e inteligência. Para além de tudo isto, as provas e medidas a que consentem submeter-se antes, durante e depois, vão permitir concluir se os psicadélicos, administrados naquelas circunstâncias, trazem ou não benefício em níveis que outras terapias não tinham conseguido antes.

A ciência psicadélica está a acontecer e já leva um avanço considerável que estamos a tardar acompanhar em Portugal. Porque é que precisamos mais dela agora? Porque temos estado e vamos estar mais doentes do que nunca. Não me refiro às sequelas todas do vírus, diretas e indiretas, colaterais, consequência de um sistema desesperado e a fazer o seu melhor por atender a todos. Ou seja, não me refiro à doença do corpo, que vem sempre primeiro, com ou sem pandemia. Refiro-me à outra — à doença mental. Já não tínhamos, e não será certamente agora que passaremos a ter, capacidade para lidar com ela.

Chegada aqui, direi o que estou prestes a dizer com angústia, porque contribuo para a formação de futuros psicólogos, jovens cheios de vontade de fazer a diferença com as ferramentas que conseguimos ensinar-lhes. E o que estou prestes a dizer não honra esse entusiasmo radioso que eles trazem tantas vezes estampado no rosto durante cinco anos. Mas a verdade é que sinto a maior das desconfianças sobre a nossa capacidade para lidar com a doença mental. Já sentia antes, sinto-a muito mais agora. E não tenhamos dúvidas. Vamos estar mais deprimidos, mais ansiosos, mais dependentes, mais violentos, mais bipolares, mais psicóticos, mais traumatizados do que nunca, quando tudo isto passar. À superfície. Porque todas estas consequências para a saúde mental vão arrastar-se muitos mais anos do que durarão os efeitos visíveis da crise económica. Vão ter um custo social e humano que ninguém terá ferramentas nem motivação para estimar com rigor, mas que será brutal.


A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico. A parte II será publicada no próximo dia 22 de Março de 2021