Ambiente vs. população: menos é mais

O nosso fim como civilização está mais ameaçado pelo uso insustentável do ambiente do que pela quebra da natalidade.

Num artigo de opinião no PÚBLICO, “Janeiro de 2021, o mensis horribilis da demografia em Portugal. Um grito de aviso para o nosso futuro comum?”, Pedro Góis expressa preocupação com o futuro demográfico de Portugal, dada a tendência para uma diminuição da população (mais mortes, menos nascimentos e pouca imigração). O resultado é que “somos hoje menos a habitar o país, menos a usar o Serviço Nacional de Saúde, menos a ver televisão, menos a pagar impostos, menos, menos, menos”. A preocupação é compreensível, tendo em conta o modelo atual de sustentabilidade económica. Mas há uma outra face da moeda: menor população também significa menor demanda de combustíveis fósseis, peixes do mar para consumo, pesticidas, poluentes, barragens e menor o impacto ambiental geral.

Vivemos hoje um processo de extinção em massa e que põe a nossa própria espécie em risco com o aquecimento geral, subida do nível dos oceanos, desaparecimento das espécies polinizadoras (que contribuem para a geração de alimentos), só para nomear alguns. A causa primária deste processo é o excesso populacional do planeta. Em 2005 éramos 6,5 mil milhões de habitantes; hoje somos 7,6 mil milhões, um aumento diário de ~250.000 (sensivelmente o equivalente a uma cidade do Porto – 238 mil habitantes – por dia).

A nossa pegada ambiental é insustentável: consumimos mais recursos do que aqueles que o planeta tem à disposição, e Portugal não é exceção. As últimas florestas virgens estão a ser abatidas para alimentar uma população mundial crescente. O “Índice Planeta Vivo global” mostra uma queda média de 68% nas populações de espécies de vertebrados monitorizados entre 1970 e 2016. Cerca de 28.000 das espécies conhecidas estão em extinção e, neste aspeto, Portugal está na linha da frente da Europa (ou na cauda, dependendo do ponto de vista).

Só há duas formas de reverter esta situação: (a) diminuindo a população (logo, menor pressão sobre os recursos) ou (b) mudar os nossos hábitos de vida. Na minha opinião, nenhuma das duas formas só por si será suficiente. As pessoas não são muito recetivas a abrir mão dos privilégios de viajar de avião, acumular bens (nem todos supérfluos) e ter casas aquecidas. Já vimos a polémica que se instaurou quando o reitor da Universidade de Coimbra baniu a carne de vaca nas cantinas da universidade.

O desenvolvimento de um país não se mede pelo número de habitantes nem pelo seu crescimento populacional. Se fosse esse o caso, teríamos como países mais desenvolvidos Bangladeche, Níger e Uganda e como países pouco desenvolvidos a Austrália, Islândia e Canadá. De acordo com Rober Solow, premio Nobel da Economia em 1987, não é o número de habitantes de um país que contribui para o crescimento económico, mas sim o conhecimento e a tecnologia.

Pedro Góis tem razão quando manifesta preocupação quanto aos efeitos na diminuição da população no modelo atual de sustentabilidade económica. No entanto, em vez de promover crescimento populacional, o que deveríamos estar a discutir agora é um modelo pós pandemia de populações estáveis ou em contração, já que se projeta uma estabilização da população mundial para 11.000 milhões de habitantes em 2100 (a menos que haja outra “ajuda” pandémica). Ainda nos arriscamos a ficar ao lado dos dinossauros no quadro dos seres extintos. No entanto, o nosso fim como civilização está mais ameaçado pelo uso insustentável do ambiente do que pela quebra da natalidade.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico