A incontinência urinária feminina não pode ser desvalorizada

O tratamento em situações ligeiras pode ser aconselhamento, educação e ensino, prevenindo o agravamento da incontinência urinária.

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Molly Belle/Unsplash

A incontinência urinária é definida como a queixa de qualquer perda involuntária de urina. É comum na população geral, predomina no sexo feminino e aumenta com a idade. Pode ocorrer também em mulheres mais jovens, em idade reprodutiva, habitualmente como problema após o parto.

Apesar da frequência e do grande impacto na qualidade de vida da mulher, a incontinência urinária continua a ser subdiagnosticada e subtratada. Muitas das dificuldades assumidas na procura de ajuda médica para a incontinência urinária advêm do facto de muitas mulheres se sentirem envergonhadas ou constrangidas, ou desvalorizarem a importância do problema, comparativamente com outras patologias consideradas mais severas ou por terem ideias preconcebidas como associação da sintomatologia ao envelhecimento ou elevado número de partos. De igual modo há quem receie a desvalorização das suas queixas por parte dos profissionais de saúde ou não acredite na eficácia dos tratamentos.

Houve neste tempo de pandemia, pelo receio de ir ao hospital, uma redução na procura de cuidados de saúde. A incontinência urinária, não sendo considerada como uma “doença”, foi indubitavelmente deixada para trás. As unidades de saúde seguem protocolos e circuitos para garantir a segurança dos doentes e dos profissionais de saúde, logo não devem adiar por receio a deslocação aos hospitais, seja para uma consulta, exame ou tratamento.

O seguimento numa Consulta de Uroginecologia é aconselhado às mulheres que sofrem de incontinência urinária ou têm patologia do pavimento pélvico, desde os grandes prolapsos urogenitais às pequenas lacerações perineais.

A International Continence Society descreve três formas dominantes de incontinência urinária:

  • Incontinência urinária de esforço, ou de stress, em que a perda de urina ocorre quando a pressão intra-abdominal aumenta, como ao tossir, saltar, rir, espirrar ou praticar exercício físico.
  • Incontinência urinária de urgência, em que a perda de urina ocorre associada a uma vontade imperiosa de urinar. A doente não consegue chegar atempadamente à casa de banho, o que leva a pequenas perdas ou perdas totais de urina. Surge frequentemente associada a gestos simples do dia-a-dia, como lavagem da louça ou introdução de chave na porta ao chegar a casa.
  • Incontinência urinária mista, em que as doentes podem ter sintomas de incontinência urinária de esforço ou de urgência.

A incontinência urinária pode estar associada a outros sintomas ou sinais como acordar muitas vezes à noite para urinar, infecções urinárias de repetição, sensação de peso hipogástrico, sensação de ardor e prurido vulvo-vaginal, falta de lubrificação vaginal ou dificuldade associada a sensação duma “bola” ou “ovo” na vagina na micção ou defecação, dada a associação frequente a prolapsos genitais.

O estudo na Consulta de Uroginecologia, da incontinência urinária e das patologias do pavimento pélvico, é sobretudo clínico. A realização do estudo urodinâmico e a ecografia pélvica podem ser necessárias para a definição da estratégia terapêutica mais adequada.

A abordagem terapêutica é personalizada e adaptada à fase da vida da mulher. O tratamento em situações ligeiras pode ser aconselhamento, educação e ensino, prevenindo o agravamento da incontinência urinária. Tratamento farmacológico (medicamentos) ou reabilitação do pavimento pélvico por fisioterapia ou tratamento cirúrgico podem ser necessários em situações mais graves, podendo haver necessidade de combinar os diferentes tratamentos. O tratamento cirúrgico indicado na incontinência urinária de esforço evoluiu nas últimas décadas, tendo geralmente excelentes resultados, mas a cirurgia para ser bem-sucedida deve ser realizada por cirurgiões especializados e experientes e na sequência da realização do diagnóstico correcto.