“E Se Nós Falássemos”: um comentário à reportagem sobre a consciência animal da RTP

Já se esperava que exibir televisivamente e em horário nobre algo que os produtores de carne preferem manter deliberadamente escondido dos consumidores fosse causar reacções severas de eczema ao sector pecuário.

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Iva Rajovic/Unsplash

“Há sofrimento nos matadouros?”, pergunta a jornalista. Manuel Magalhães Sant’Ana, médico veterinário e especialista europeu em bem-estar animal, responde à inquietante questão civilizacional com um “Não deve haver”. Afirmação tremida, que não parece negar, nem tampouco pretende confirmar.

Está tudo ali no limbo da indecisão. E a resposta ilustra bem a fractura que existe entre os nossos desejos e ansiedades em torno do abate e consumo de carne dos animais. Tanto que, quando a repórter insiste, de modo a clarificar, o especialista em bem-estar animal já vacila e esclarece que isso “não quer dizer que não haja”.

Afinal de contas, e como dizia o sociólogo Norbert Elias, a nossa civilização não progrediu por consumirmos mais carne, mas ao dedicarmos mais esforço a ocultar a evidência sangrenta da sua produção.

Para os mais distraídos, a conversa é extraída da reportagem E Se Nós Falássemos, transmitida recentemente no programa Linha da Frente, da RTP. Um dos raros momentos televisivos em que se levantou o véu sobre um tabu e se deu aos consumidores um vislumbre do que acontece por detrás das cortinas dos matadouros e da exploração animal.

Já se esperava que exibir televisivamente e em horário nobre algo que os produtores de carne preferem manter deliberadamente escondido dos consumidores fosse causar reacções severas de eczema ao sector pecuário. Quer dizer, não é por acaso que se omitem os detalhes do processo de exploração animal das elegantes embalagens de poliestireno que encontramos nos supermercados, isto é, aqueles aspectos inerentemente violentos da pecuária, que nenhum director de publicidade destas empresas, no seu bom juízo, iria querer que constassem no rótulo da carne.

Estamos a falar de práticas comuns nesta indústria, legitimadas na legislação portuguesa, como as mutilações de alguns dos animais sem recurso a anestesia, por exemplo, o corte parcial dos dentes e da cauda em suínos e o corte do bico de galinhas, permitido por lei. Não há nada para inventar, são procedimentos comuns.

Esta reportagem pode levar-nos a questionar o papel tradicional dos médicos veterinários, já que são estes os profissionais que supervisionam muitos dos processos da produção pecuária.

A Medicina Veterinária ao serviço da exploração de animais para matança e consumo humano é um pouco como o Ministério do Amor “orwelliano”, na icónica obra 1984, que, paradoxalmente, se dedicava à tortura de pessoas e obtenção de confissões falsas. Requer um pouco de exercício mental, ou de “duplipensar”, como lhe chamaria Orwell, de modo a que a aparente contradição entre o zelo pelo bem-estar do bicho e o contributo para o abate prematuro deste se dissipe, e seja esquecida.

Imagino que se perguntássemos a um médico veterinário ou outro agente envolvido na exploração pecuária se acham que o animal teria interesse em ficar confinado toda a sua vida e abatido precocemente, quando nem sequer alcançou uma fracção do seu tempo estimado de vida, dificilmente responderiam com um genuíno sim, ainda que pudessem procurar atalhar a questão e oferecer uma pacotilha de racionalizações humanas.

Mas isto nem sequer é uma questão que justifica ponderação num sistema político-económico que está vergado ao lucro, e em que os interesses humanos suplantam axiomaticamente os interesses dos animais não humanos. O valor económico da actividade é o factor que domina e suprime quaisquer outras discussões.

Apesar de, obviamente, existirem incontáveis profissionais na área da Medicina Veterinária que genuinamente se preocupam com o bem-estar dos animais com os quais coabitamos neste planeta, a verdade é que, por outro lado, a Ordem que os representa é uma instituição abertamente antropocêntrica, isto é, para quem o bem-estar físico dos animais é uma preocupação na medida em que cuidar dos animais serve os humanos e os seus interesses.

Não será preciso fazer mais para o provar do que citar os bolorentos estatutos da Ordem dos Médicos Veterinários (OMV), nos quais se lê que um dos objectivos da mesma é “a defesa dos interesses gerais dos destinatários dos serviços médico-veterinários, nomeadamente a defesa da saúde pública através da salvaguarda e promoção da saúde, do bem-estar animal e da segurança alimentar”. Claramente, a prioridade da OMV parece ser a defesa dos interesses humanos, e o resto vem depois, a reboque.

Em carta aberta de resposta a esta reportagem da Linha da Frente, a Ordem denuncia a falta de deontologia dos jornalistas envolvidos, mas se houvesse o equivalente de um juramento de Hipócrates na Medicina Veterinária, ou seja, um compromisso inalienável em proteger a integridade da vida animal, quem teria que rever o seu código deontológico seria a OMV, para que alguns dos profissionais a quem atribui a cédula não o atropelassem todos os dias da sua carreira, mal o sabendo.

A OMV sai-se ainda em cruzada pela defesa dos animais na sua carta, dizem eles, alegando que esta reportagem tem “efeitos nefastos para todos, e, principalmente, para os animais”. É difícil de acompanhar a lógica convoluta de quem escreveu este comunicado, porque se a reportagem sensibilizar as pessoas para o respeito pela vida e integridade física e emocional dos animais, dificilmente isso irá prejudicar os bichos. Por outro lado, poderá prejudicar a carteira de quem tem interesses velados em esconder o sofrimento animal inerente à indústria pecuária.

A corroborar a tese do prejuízo para a carteira, logo de seguida, nesta mesma carta, o Conselho Directivo da OMV sai na defesa da produção animal, alegando que esta decisivamente “contribui para a economia e para o bem-estar dos portugueses”. Está tudo dito. A Ordem, aparentemente, existe para salvaguardar os interesses dos empresários e daqueles que profissionalmente dependem de que nenhuma pedra encrave esta engrenagem imparável de conversão de animais vivos em pedaços de carne anónimos e descaracterizados.

O leitor até poderá ficar a questionar-se se um veterinário não deveria pôr o bem-estar dos seus pacientes em primeiro lugar. Para muitos, é o que sucede, mas a prioridade da Ordem que os representa não são os animais, é a defesa dos agentes económicos.

Também muito se tem dito sobre a parcialidade e desonestidade da reportagem, ou sobre a suposta omissão de um contraditório, apesar de nela intervirem várias figuras ligadas à exploração pecuária, ou que defendem o seu status quo, inclusive, Garça Mariano, directora da Associação Portuguesa de Industriais de Carne. Esta garante que a indústria investe muito dinheiro para assegurar que os animais de pecuária não sofrem mas, aparentemente, o custo do uso de anestesias não faz parte desse investimento, pois a dor dos animais não compromete o produto final, a carne que nos é servida nos pratos.

Interessante seria ver estas entidades públicas, seja a Ordem dos Médicos Veterinários ou a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária, terem o mesmo cuidado em escrutinar as copiosas peças publicitárias que são transmitidas na televisão sobre os produtos cárneos, e que se limitam a retratar uma visão idílica do trato dos animais, muito longínqua da realidade industrializada de muitas produções, onde aos animais já não são dados nomes, uma prática em desuso, mas sim números, pois estes são vistos como meras máquinas fabris.

Há quem diga ainda que o problema desta reportagem é humanizarmos os animais. Eu diria que o verdadeiro problema é que os desumanizamos.

Mas todos estes rebuliços são inevitáveis numa sociedade dinâmica, em constante transformação. Como diria Mahatma Gandhi, as instituições e a sociedade estrebucham perante as mudanças de consciência e valores, no percurso inexorável do progresso civilizacional.