Preocupado com o desconfinamento, Marcelo preserva-se e não fala ao país

O Presidente da República jantou com o primeiro-ministro na última noite, mas o plano apresentado por António Costa ainda tinha muitas questões em aberto e muitos imponderáveis. Não ficou convencido.

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Marcelo optou por um silêncio que fala mais alto LUSA/MIGUEL FIGUEIREDO LOPES/PRESIDÊ

O Presidente da República está preocupado com a forma como o Governo está a planear o desconfinamento do país e quis deixar claro o seu distanciamento, optando por um silêncio que acaba por falar mais alto. Esta noite não fará a declaração ao país a propósito da renovação do estado de emergência, tradição que só interrompeu no período eleitoral das presidenciais.

Limitou-se a publicar uma nota no site onde diz apenas ter assinado o decreto que “renova o estado de emergência até 31 de Março”, antes de embarcar para o Vaticano, para uma visita rápida ao Papa que se realiza nesta sexta-feira. Assim, não será ele o porta-voz da estratégia de combate à pandemia, como tem sido. Ao Expresso, que lhe pediu um comentário sobre o plano de desconfinamento, Marcelo respondeu: “Não posso comentar decisões sobre o desconfinamento que ainda não conheço.”

Deixa todo o palco ao Governo para apresentar o seu plano de desconfinamento – plano esse cuja versão final Marcelo Rebelo de Sousa não conhece, mas apenas a versão que o primeiro-ministro lhe levou na noite de quarta-feira, quando jantaram juntos em Belém. Esse plano tinha, contudo, muitas questões em aberto, estava cheio de pontos de interrogação e de imponderáveis, demasiadas lacunas para o gosto do Presidente.

Não ficou claro, sabe o PÚBLICO, se os indicadores previstos para corresponderem às fases de desconfinamento apresentadas serão rígidos ou com margem de segurança, nem a forma de aplicação dessas fases ou sequer as medidas para cada uma. Por outro lado, Marcelo sabe que a discussão no Conselho de Ministros muda sempre muitos aspectos da proposta inicial, pelo que só no fim é que se vai conhecer o plano definitivo.

Certo é que, desta vez, o Governo não se vai limitar a fazer alterações aos decretos de execução anteriores, como já era hábito, tendo antes uma proposta nova, que corresponde ao plano de desconfinamento. Com tantas incógnitas, o Presidente preserva-se e recolhe aos bastidores.

O que tinha a dizer, ouve-se em Belém, “disse há dois dias”, na tomada de posse para o segundo mandato, quando pediu um “desconfinamento com sensatez e sucesso”, estabilização do Serviço Nacional de Saúde e melhores “medidas para a sobrevivência imediata do tecido social e empresarial”.

E já tinha dito há 15 dias, quando da última renovação do estado de emergência defendia que o confinamento era mesmo para manter até à Páscoa, “um tempo arriscado para mensagens confusas ou contraditórias”. “É uma questão de prudência e segurança”, disse então, acrescentando que “abrir sem critério antes da Páscoa, para nela fechar logo a seguir, e voltar a abrir depois dela”, seria errado: “Quem é que levaria a sério o rigor pascal?”

As preocupações de Marcelo não mudaram nestes 15 dias. “O Presidente tem uma posição sempre preocupada com a evolução da pandemia, mas sabe que o primeiro-ministro tem a mesma preocupação”, ouviu o PÚBLICO de fonte de Belém. A diferença estará em ver o copo meio vazio ou meio cheio. Estará Costa a voltar a ser o “optimista irritante” de que Marcelo se queixava noutros tempos?

Notícia actualizada às 18h40, depois de publicada a nota no site da Presidência