Aprender a viver com a liberdade (dos outros)

O país precisa de uma direita que possa ser uma força de oposição credível e uma alternativa de governo responsável. No fundo, uma direita que consiga fazer o que fez a esquerda nos últimos anos, com os governos de António Costa.

“Entre o rico e o pobre, o forte e o fraco, o mestre e o servo, é a liberdade que oprime e a lei que liberta”

Lacordaire, religioso dominicano (1802-1861)

A um ano de comemorar 48 anos de liberdade, desde o dia em que um punhado de militares, em menos de 24 horas, derrubou uma ditadura que durou os mesmos 48 anos e nos devolveu a liberdade, devemos preocupar-nos com o aumento dos sinais de revanchismo de alguma direita que, ao longo destes anos, nunca se conformou com a glorificação dos capitães de Abril. É importante lembrar essa data aos amnésicos, aos nostálgicos do salazarismo, aos intelectuais e activistas de esquerda (que, entretanto, abjuraram), aos novos populistas, e, sobretudo, às novas gerações que não viveram esses tempos.

E por duas razões: a primeira é que convém não esquecer o que foi o “golpe dos capitães”, que levaram 13 anos a arriscar a vida por uma guerra sem saída, e que tomaram a decisão heróica de usar as armas para devolver aos cidadãos aquilo que o “Estado Novo” tinha depositado nas suas mãos — mas para outros fins: a democracia. Especialmente aqueles que, nos dois anos seguintes, correram riscos, mas não vergaram, para fazer cumprir o programa do MFA: garantir que, no prazo de um ano, Portugal teria uma Constituição votada no Parlamento pelos representantes dos cidadãos e um governo livremente eleito pelo povo.

Juntamente com Mário Soares e o PS, e com o sagaz apoio de Costa Gomes, foram esses militares de esquerda, verdadeiros democratas, que podemos com justiça identificar como “grupo dos 9”, que impediram que as forças extremistas, à direita e à esquerda, entre o 11 de Março de 75 e o 25 de Novembro de 75, travassem o curso da “normalização democrática”.

A segunda razão para nos lembrarmos dessa data é que estamos a viver um novo ataque à democracia, por muitos dos que, na verdade, nunca se conformaram com o fim das colónias e da ditadura, nem com a legalização do PCP: uma direita nostálgica, nacionalista e antidemocrática, onde se misturam agora ex-militantes da extrema-esquerda, convertidos à ideologia ultraliberal, com populistas básicos, de tiques fascistas, que querem que o país seja só para os “bons”: em suma, os que nunca se conformaram que os militares de Abril tenham decidido que a liberdade tinha de ser para todos.

É verdade que essa direita nunca se escondeu: nas eleições de 86, mas, sobretudo, nos 20 anos de Cavaco no poder: primeiro como primeiro-ministro, depois como Presidente da República, apoiando Passos Coelho, que se gabou de ter “ido mais longe do que a troika”, entregando ao desbarato as nossas empresas estratégicas a grupos estrangeiros e convidando os nossos melhores talentos a emigrar. Nesses 20 anos de poder, Cavaco recusou sempre usar o cravo na lapela nas comemorações do 25 de Abril; em 1989, recusou uma pensão “por serviços excepcionais e relevantes” a Salgueiro Maia e concedeu-a a dois antigos inspectores da PIDE-DGS, um dos quais, o famoso Óscar Cardoso, foi um dos que, na tarde do dia 25, da sede da António Maria Cardoso, fizeram fogo sobre a multidão, provocando os únicos mortos da revolução; em 2014, foi aos Emirados Árabes Unidos gabar-se do “sucesso das nossas privatizações” e “vender Portugal” como um país com “sol, belas paisagens e cavalos”, que ainda tinha uma excelente empresa para lhes vender: a TAP. O mesmo que, há poucos dias, abandonou a tomada de posse do Presidente da república, antes da sessão de cumprimentos; e que teve agora o despudor de vir declarar que a democracia estava “amordaçada” (numa reles alusão ao livro que Soares publicou no exílio) e que a culpa era do “Governo da ‘geringonça'”, que ele, no estertor do seu segundo mandato, tudo fez para sabotar.

Pelo caminho, tivemos o Governo de Durão Barroso, que em poucos anos trocou o MRPP pelo Goldman Sachs, e que, como primeiro-ministro, se aliou aos interesses americanos, cedendo-lhes a Base das Lages e comprometendo vergonhosamente Portugal na criminosa invasão do Iraque. Com um CDS em saldos e Rui Rio perdido no seu labirinto, espalmado entre a coerência das suas convicções e a missão para que o elegeram, a direita precisa de quem lhe devolva o respeito pelos fundadores da Ala Liberal, e que repudie ao mesmo tempo os nostálgicos do salazarismo, os ultraliberais e os zangados com o “sistema”.

Mas ao que estamos a assistir, cada vez com menos pudor, é ao branqueamento do que foram 48 anos de feroz repressão dos que discordavam da ideologia do Regime: Deus, pátria, família, autoridade, obediência ao chefe e trabalho sem direitos. Um Regime que construiu o Tarrafal em Cabo Verde, à imagem de Auschwitz, e prisões em Portugal, onde se prendia e condenava arbitrariamente, sem direito a defesa; e onde homens e mulheres eram sujeitos a castigos corporais e à tortura do sono; um regime comandado por um chefe que proclamava que a mulher devia ser esposa obediente e mãe devota, que as enfermeiras e as assistentes de bordo não podiam casar-se e que as mulheres casadas não podiam sair do país sem licença dos maridos; um Regime em que ninguém podia falar à vontade nos cafés ou no emprego, porque havia bufos em todo o lado, nem escrever uma linha sem ser sujeita ao exame prévio dos censores, e onde os filmes não podiam ser exibidos sem a aprovação de uma comissão de esposas castas e velhos coronéis reformados. Um regime comandado durante quatro décadas por um homem que nunca visitou as colónias nem saiu de Portugal, a não ser uma vez para ir conferenciar com o general Franco a Sevilha, que quase não saiu de São Bento — em verdade, nunca saiu de Santa Comba!

Mas o que é mais grave é que a direita se revê agora também no programa da Iniciativa Liberal. Num artigo publicado neste jornal, a que chamou “A direita está em cacos”, Maria João Marques, que se declara “da direita moderada”, definiu lapidarmente o que são as políticas “liberais” que nos conduziram à crise de 2008: “[A IL] confunde liberdade com ausência de acção do Estado (…), essencial para promover a esfera de liberdade de todos os que não estão no topo da pirâmide social. (…) Defende o capitalismo selvagem, os abusos de poder e de concorrência das grandes empresas, a abolição do Estado social (…). Nada disto ocupa a IL. É um partido que se diz liberal, chama ao mundo inteiro ‘socialista’, à moda dos trumpistas (eu, para a claque, sou marxista), e (…) tem como ideia-bandeira pôr os impostos, incluindo dos mais pobres, a pagar colégios aos filhos da classe média.”

Porque é que esta desagregação dos partidos tradicionais da direita me inquieta, eu que me considero, desde sempre, um moderado de esquerda (politicamente, social-democrata, liberal nos costumes e conservador nos valores)? Porque o país precisa de uma direita que possa ser uma força de oposição credível e uma alternativa de governo responsável: patriótica sem ser nacionalista, que defenda o mercado sem dispensar a presença do Estado, uma direita tolerante, aberta, humanista e europeia.

No fundo, uma direita que consiga fazer o que fez a esquerda nos últimos anos, com os governos de António Costa: o PCP, fiel a um passado de meio século na clandestinidade a lutar pelos direitos dos trabalhadores, já não sonha com a “ditadura do proletariado”, mas continua a ser o partido do mundo do trabalho, e faz o seu papel nos sindicatos e nas autarquias; e o BE, apesar da atracção por causas fracturantes, continua a lutar pela justiça social e a denunciar a interferência de interesses ocultos nas decisões políticas, mas tornou-se um partido dialogante, disposto a negociar sem ceder nos seus princípios: aprendeu com Tsipras o que o PCP aprendeu com a História.

Os que continuam a achar que os comunistas são para abater, porque se lembram, como eu, do que foi o horror do estalinismo, esquecem-se do que foi a História da direita com os seus horrores, e da Igreja, conivente durante séculos com muitas cortes europeias e ditaduras sul-americanas, a direita de Franco e Salazar, de Hitler e Mussolini, de Videla e de Pinochet. Essa Igreja que foi a grande predadora do legado da cultura greco-romana; e que, depois, com os tribunais da Inquisição, tem um historial arrepiante de perseguição aos suspeitos de heresia, de autos-de-fé, fogueiras e bárbaros assassínios. Mas que soube, também ela, com o tempo, sobretudo depois de João XXIII e agora do Papa Francisco, fazer a sua conversão.

É altura, talvez, de essa direita avivar a memória e aprender com a História.