Até que a igualdade nos separe

O cumprimento dos Direitos Humanos das meninas e mulheres deve ser um desígnio mundial, caso contrário continuaremos a permitir que os direitos que deveriam ser de todas e de todos sejam mera letra da lei que se desvanece quando a igualdade nos separa.

Diz António Guterres no seu artigo de ontem que a crise da covid-19 tem rosto de mulher. Mas não é só esta crise que assola e assombra as nossas vidas. Historicamente, fomos e somos quase sempre quem mais sofre com este sistema que define papéis e vivências sociais com base num pressuposto de poder que só resiste porque se alimenta de desigualdade.

Apesar do caminho que temos feito em matéria de direitos das mulheres, é factual que histórica e culturalmente as mulheres têm sido empurradas para a esfera da vida privada.

Os problemas estruturais que persistem nos dias de hoje e dos quais radica a desigualdade de género fazem com que o ponto de partida para mulheres e homens não seja o mesmo.

Por muito que se mude a roupagem, os estereótipos de género, o sexismo, o machismo e patriarcado, continuam a marcar presença e a mesma dita meritocracia acaba na verdade por empurrar - a nós mulheres - para o centro do discurso falacioso que diz que só não somos mais ou melhores nos cargos de poder porque somos histéricas, maldosas e, claro, pouco inteligentes.

Ora, podia escrever aqui que este sistema tem os dias contados. Mas os dados e os casos de discriminação diários dizem-nos o contrário: se é verdade que tivemos várias décadas de novos avanços políticos e sociais em matéria de igualdade, é também verdade que avançam, crescem e recaem sobre nós atos de violência humanamente atroz: violações sexuais toldadas por uma lei que ainda não é suficientemente robusta; atos de violência doméstica e psicológica que nos agridem e matam em contextos de intimidade; cuidados de saúde que descuram a prevenção e que se revestem ainda de grandes e graves preconceitos, nomeadamente no que toca à gravidez e ao parto; práticas de Mutilação Genital feminina; discriminação laboral e remuneratória; privação do acesso à educação em contextos culturalmente ainda mais desafiantes; abortos e tratamentos médicos praticados à força; mulheres trans e de género diverso que continuam a ser assassinadas por todo o mundo porque os seus corpos e as suas identidades não correspondem à norma definida pelo sistema machista.

Custa ler e conhecer todo este rol de violências. Mas custa ainda mais vivê-las. E é este sentido de consciência que também continua por cumprir na nossa sociedade. É por isso urgente que se perceba que os direitos das mulheres não são uma ameaça. O feminismo não é um bicho papão. E as políticas públicas não são fachadas de propaganda ideológica. E sim: o cumprimento dos Direitos Humanos das meninas e mulheres deve ser um desígnio mundial, caso contrário continuaremos a permitir que os direitos que deveriam ser de todas e de todos sejam mera letra da lei que se desvanece quando a igualdade nos separa.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico