Manuel Carmo Gomes: abrir creches e primárias em Março é possível, mas é preciso estar-se “sempre pronto para parar”

Epidemiologista Manuel Carmo Gomes considera que é possível a partir de meados deste mês abrir creches e primeiro ciclo do ensino básico. Mas alerta que efeito do desconfinamento deve ser muito bem avaliado pelo menos durante 15 dias para que país não se afaste dos números ideais de controlo da pandemia.

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Rui Gaudencio

São as linhas vermelhas e verdes para ajudar o Governo a guiar processos de confinamento e desconfinamento. O que se tem de evitar? Uma taxa de incidência de novos casos a 14 dias de 240 por 100 mil habitantes, um Rt acima de 1 e 245 camas de UCI dedicadas a doentes com covid-19 ocupadas. O que se deve ter? Uma taxa de incidência abaixo dos 60 novos casos por 100 mil habitantes, um risco de transmissibilidade (Rt) abaixo de 1 e uma taxa de ocupação de camas de unidades de cuidados intensivos (UCI) só para doentes covid que esteja longe dos 85%.

Uma receita para o controlo da pandemia “exigente”, mas que “é exequível” embora implique “um conjunto de decisões e acções rápidas que nos impeçam de afastar deste ideal”, diz ao PÚBLICO o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, que fez parte do grupo que criou esta matriz e que foi apresentada na reunião no Infarmed por Baltazar Nunes, epidemiologista do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa).

Para Manuel Carmo Gomes, é possível abrir as creches e o 1.º ciclo do ensino básico “a partir de meados deste mês”, mas os seus efeitos na subida de casos e nos internamentos “têm de ser muito bem avaliados” antes de se dar qualquer outro passo. “Não é prometer um calendário e cumprir aconteça o que acontecer. É abrir e ver o que se decide em função do que se medir ao fim de 15 dias”, explica.

O epidemiologista enfatiza que “o desconfinamento deve ser acompanhado por um aumento da cobertura vacinal dos grupos de maior risco de hospitalização”. “E há aqui algum atraso, relacionada com a decisão de não dar a vacina da Astrezeneca a pessoas com mais de 65 anos”, diz. Uma mudança nesta decisão e o alargamento do intervalo entre tomas de doses para 42 dias permitiria vacinar mais pessoas e mais depressa.

É pelas creches que o plano de desconfinamento apresentado por Raquel Duarte, da Administração Regional de Saúde do Norte e do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, começa. Dividido em cinco níveis de risco - sendo o nível 5 igual a uma incidência de 240 novos casos por 100 mil habitantes - e dirigido a vários sectores da sociedade, a ex-secretária de Estado da Saúde afirmou que no início do desconfinamento “as medidas devem ser implementadas a nível nacional” a partir do nível 4 de risco. Assim, os primeiros elementos a abrir serão as creches e o pré-escolar, os locais de trabalho sem contacto com o público e os transportes públicos só devem permitir 25% da sua ocupação total. “As medidas deverão ser avaliadas a cada duas semanas” e só se passará ao nível inferior de restrições, se a situação for melhor.

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Ao PÚBLICO, Bernardo Gomes, especialista em saúde pública, lembra que a pandemia “é um desafio muito grande para não se potenciar o envolvimento de todos” e por isso destaca a “importância de uma boa comunicação” para que todas as pessoas percebam todos os passos a dar quer no avanço de um desconfinamento como num eventual recuo de medidas se for preciso controlar indicadores. Quanto a um momento para avançar, não fala de datas mas refere que “quanto mais cedo se começar a desconfinar gradualmente, mais tempo teremos para observar e reduzir o risco”. Até porque “as pessoas já começam a manifestar cansaço e vontade de sair”. 

Avaliar o tempo que se tem

A exigência de um controlo apertado dos efeitos de cada uma das etapas do desconfinamento percebe-se pela margem “estreita” que existe. “O Rt já está subir, e há um atraso de sete dias na medição do Rt, e o impacto da variante do Reino Unido - que representa cerca de 65% dos novos casos em Portugal - pode fazer o Rt subir mais depressa do que estamos habituados”, destaca Manuel Carmo Gomes, referindo que “temos de começar por algum lado, mas sempre pronto para parar”.

Até porque o tempo de acção – que vai entre a avaliação, tomada de medidas e estas terem efeito na incidência - conta, como salientou Baltazar Nunes, que apresentou dois cenários. Um em que a base é uma taxa de incidência de 60 novos casos por 100 mil habitantes. Se o Rt for de 1,2, em 30 dias chega-se uma taxa de incidência de 240 novos casos por 100 mil habitantes. Mas se o Rt for de 1,05, serão cerca de 100 dias até que tal aconteça. Ao contrário, estando com uma incidência de 240 novos casos, se o Rt for de 0,95 serão preciso 100 dias para chegar à taxa de incidência ideal. Mas bastarão apenas 15 dias para o conseguir, se o Rt for de 0,7.

“Controlando a incidência e a velocidade de transmissão, temos a pandemia controlada”, disse o especialista, lembrando que todos os indicadores “têm de ser analisados em conjunto”. Além dos três principais – taxa de incidência acumulada a 14 dias, o Rt e as camas de UCI ocupadas -, há ainda um conjunto de indicadores secundários que têm de entrar na equação. São estes uma taxa de positividade “abaixo dos 4% de forma sustentada”, um atraso na notificação – mais de 24 horas após a realização do teste – que não exceda mais de 10% dos casos confirmados e ter pelo menos 90% dos casos e dos contactos isolados e rastreados nas primeiras 24 horas após a notificação.

A situação actual deixa o país muito perto de uma taxa de incidência de 120 novos casos por 100 mil habitantes e um Rt de 0,74. A taxa de positividade está em 3,3%. A percentagem de casos e contactos isolados nas primeiras 24 horas após notificação encontra-se em cerca de 100% e o atraso na notificação após realização do teste é de cerca de 10%. A manter-se esta tendência decrescente de casos, “a 15 de Março estaremos numa situação muito perto dos 60 novos casos por 100 mil habitantes e perto da ocupação desejada de UCI”, disse Baltazar Nunes.