Uma crise com rosto de mulher

O mundo tem a oportunidade de deixar para trás gerações de discriminação enraizada e sistémica. É hora de construir um futuro igualitário.

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Yihui Yuan/UN Women

Enquanto o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher, no contexto de uma pandemia mundial, uma coisa é clara: a crise da covid-19 tem rosto de mulher.

A pandemia está a exacerbar as já profundas desigualdades sentidas por mulheres e meninas, eliminando anos de progresso em direção à igualdade de género.

As mulheres têm maior probabilidade de trabalhar nos setores mais afetados pela pandemia. A maioria dos trabalhadores de serviços essenciais, na linha da frente do combate à pandemia, são mulheres – muitas delas oriundas de grupos racialmente e etnicamente marginalizados e com baixos níveis de rendimento.

As mulheres são 24% mais vulneráveis à perda de emprego e sofrem quedas mais acentuadas de rendimentos. As disparidades salariais entre homens e mulheres, já elevadas, aumentaram, inclusive no setor da saúde.

A prestação de cuidados não renumerada aumentou drasticamente devido a medidas de confinamento e ao fecho de escolas e creches. Milhões de meninas poderão nunca mais voltar à escola. As mães – especialmente as mães solteiras – enfrentam sérias adversidades e sentem elevados níveis de ansiedade.

A pandemia desencadeou também uma epidemia global paralela de violência contra as mulheres em todo o mundo, com um aumento significativo de casos de violência doméstica, tráfico, exploração sexual e casamento infantil.

Embora as mulheres representem a maioria dos profissionais de saúde, um estudo recente revelou que apenas 3,5% das equipas de trabalho no combate à covid-19 tinham o mesmo número de homens e mulheres. Na cobertura global de notícias relativas à pandemia, apenas uma em cada cinco especialistas era mulher.

Toda esta exclusão é, só por si, uma emergência. O mundo precisa de um novo estímulo à promoção da liderança feminina e da participação igualitária. É evidente que tais iniciativas irão ser benéficas para todos.

A resposta à covid-19 evidenciou o poder e a eficácia da liderança feminina. No ano passado, os países com líderes femininas tiveram taxas de transmissão mais baixas e estão, na sua maioria, mais bem posicionados para recuperar desta pandemia. As organizações femininas preencheram lacunas cruciais no fornecimento de serviços e informações essenciais, especialmente ao nível comunitário.

Em geral, quando as mulheres lideram governos, assistimos a maiores investimentos na proteção social e avanços mais significativos contra a pobreza. Quando as mulheres estão no parlamento, os países adotam políticas mais eficazes de combate às alterações climáticas. Quando as mulheres negoceiam a paz, os acordos são mais duradouros.

No entanto, as mulheres representam apenas, a nível global, um quarto dos legisladores nacionais, um terço dos autarcas e apenas um quinto dos ministros. A este ritmo, a igualdade de género não será alcançada nos sistemas políticos nacionais antes de 2063. A paridade entre chefes de Estado levará mais de um século.

Um futuro melhor depende da resolução deste desequilíbrio de poder. As mulheres têm o mesmo direito a exprimir-se com autoridade sobre as decisões que afetam as suas vidas. Tenho orgulho de ter alcançado a igualdade de género nas posições de liderança das Nações Unidas.

O processo de recuperação da pandemia constitui a nossa oportunidade de traçar um novo caminho mais igualitário. As ajudas à recuperação deverão ser especialmente direcionadas a meninas e mulheres, inclusive por meio de investimentos em infraestruturas associadas à prestação de cuidados. A economia formal só funciona porque é subsidiada pelo trabalho feminino não remunerado.

À medida que recuperamos desta crise, devemos traçar um caminho para um futuro inclusivo, verde e resiliente. Neste contexto, apelo a todos os líderes que trabalhem em seis áreas estruturais:

Em primeiro lugar, que assegurem uma representação igualitária – desde os conselhos de administração das empresas aos parlamentos, do ensino superior às instituições públicas – por meio de quotas e outras medidas especiais.

Em segundo lugar, que invistam significativamente na economia da prestação de cuidados e na proteção social, e redefinam o Produto Interno Bruto de forma a incluir o trabalho doméstico, tornando-o mais visível e contabilizável.

Em terceiro lugar, que removam as barreiras à inclusão plena das mulheres na economia, através do acesso ao mercado de trabalho, direitos de propriedade e a criação de créditos e investimentos direcionados.

Em quarto lugar, que revoguem as leis discriminatórias em todas as esferas – desde direitos laborais e de propriedade, até ao estatuto pessoal e proteção contra a violência.

Em quinto lugar, cada país deve promulgar um plano de emergência de combate à violência contra mulheres e meninas, seguido de financiamento, legislação e vontade política para acabar com este flagelo.

Em sexto lugar, peço uma mudança de mentalidade, o aumento da consciencialização pública e que se acabe com o preconceito sistémico de género.

O mundo tem a oportunidade de deixar para trás gerações de discriminação enraizada e sistémica. É hora de construir um futuro igualitário.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico