Um prémio e o olhar generoso do David

Recebi um prémio, que traz outro prémio no nome, o do meu colega David Lopes Ramos, figura maior da crítica e jornalismo gastronómicos que morreu há quase uma década. Hoje, eu e o David coincidimos nos interesses, mas já não no tempo e no espaço. É pena.

Foto
ADRIANO MIRANDA / PUBLICO

Receber um prémio faz-nos pensar nos encontros, desencontros e quase encontros da vida. Fui colega do David Lopes Ramos durante muitos anos, recordo-o sempre generoso, atento, de sorriso caloroso – um daqueles jornalistas mais velhos que são sempre um porto seguro para as nossas incertezas de principiantes.

Coincidimos no tempo e no espaço – as primeiras redacções do PÚBLICO nessa época de grandes começos – mas não coincidimos nos interesses nesse tempo. Durante esses anos iniciais, eu, que sofro de tendências obsessivas, pensava quase exclusivamente no Médio Oriente. Comia com gosto, como sempre fiz, mas pensava pouco sobre o que comia.

Tenho, por isso, pena de não ter feito parte dos grupos que se formavam à volta do David, dos colegas que o acompanhavam muitas vezes em longas refeições e que aprendiam com ele coisas preciosas sobre comida e sobre vinho. Eu andava distraída com sheiks, emires, revolucionários, o Islão, e, imagine-se, a esperança de paz no Médio Oriente.

Agora – e, sobretudo, ao receber o prémio David Lopes Ramos, da revista Grandes Escolhas – penso que a vida tem destas coisas: hoje eu e o David coincidimos nos interesses, mas já não no tempo e no espaço. É pena. Teria aprendido muito com ele e, acredito, ter-nos-íamos divertido.

Mas não era apenas o profundo conhecimento que o David tinha sobre tudo o que se relacionava com comida e gastronomia que marcava os que com ele lidavam. Era, e disso eu sou testemunha, a forma generosa e disponível, mesmo que exigente, como olhava o mundo e o trabalho dos outros.

É um equilíbrio difícil de conseguir, esse, que só pode partir de uma autoridade natural fundada num conhecimento sólido. O meu pai – que, tal como o David, morreu aos 63 anos – também o tinha, esse olhar generoso, tentando ver o que de bom havia naquilo que tinha que julgar, e julgando sempre com a vontade de ver os outros fazerem melhor.

É uma maneira de olhar o mundo. E é, provavelmente, a coisa mais importante que aprendemos com eles. Isso e um prazer profundo pela vida – para o qual 63 anos foram, para ambos, injustamente poucos.

Tivesse eu estado mais atenta e eu e o David podíamos ter coincidido no tempo, no espaço e nos interesses e, juntamente com o meu pai – que na sua imensa curiosidade pelo mundo coincidia com todos os interesses, incluindo o da gastronomia – teríamos ido festejar este prémio num daqueles jantares sem hora para acabar, como se não houvesse pandemia nem confinamento. Como se não houvesse tempo a perder.