Discotecas dizem adeus ao Cais: “As memórias não mudam de sítio”

Jamaica, Tokyo e Europa já têm tudo empacotado para começar uma vida nova junto ao rio. Não houve a última grande noite na rua que ajudaram a pôr no mapa, ficam recordações e muita vontade de futuro.

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Mário Dias, DJ histórico do Jamaica Ricardo Lopes

Não era assim que devia ter acontecido. Na cabeça de Fernando Pereira estava delineado um plano que unia o passado ao futuro sem grandes sobressaltos. “A ideia era fazermos a última noite aqui e alugarmos uns autocarros para levar as pessoas até ao novo espaço.”

Mas esta foi mais uma coisa que a pandemia roubou. Os frequentadores fiéis do Jamaica, do Tokyo e do Europa não puderam despedir-se. Quando as pistas de dança reabrirem, encontrarão estes três bares num sítio novo, à beira-Tejo. Mais espaçosos e mais seguros, nos armazéns do Cais do Gás é uma nova história que se escreve.

“As memórias não mudam de sítio”, comenta Mário Dias, o DJ histórico do Jamaica, enquanto dá uma olhada em volta. As arrumações começaram há poucas semanas. O que ainda não saiu está encaixotado e bem arrumado a um dos cantos da pista, junto à cabine que Mário ocupou noites a fio. “Aconteceu aqui muita coisa”, alguém comenta. Resposta dele: “Ui, ui!”

O edifício está devoluto há anos e vai agroa ser transformado em hotel Ricardo Lopes
Nas paredes do Tokyo ainda estão as capas de discos famosos Ricardo Lopes
O interior do Jamaica, já vazio Ricardo Lopes
A cabine de DJ onde Mário Dias passou 12 anos e onde o filho, Bruno Dias, trabalhou até à pandemia Ricardo Lopes
À porta do Tokyo ainda estão os cartazes de antigos concertos Ricardo Lopes
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Ricardo Lopes

As suas mãos ajudaram a moldar uma forma de estar na noite lisboeta. De zona mal vista a paragem obrigatória, o Cais do Sodré nocturno fez-se muito graças a estas três casas. A sua mudança para o outro lado da linha férrea era ponto assente há vários anos, desde que o proprietário do edifício anunciou a intenção de o converter em hotel e desde que a Câmara de Lisboa se comprometeu a encontrar sítios novos para as discotecas.

“Está praticamente tudo tratado, à partida a obra começa ainda este mês”, diz Fernando Pereira, dono do Jamaica e do Tokyo. Das suas palavras transparece o entusiasmo com que encara a mudança. Quando a Rua Nova do Carvalho foi pintada de cor-de-rosa, no princípio da década passada, o empresário anteviu que a era dourada do Cais do Sodré não duraria para sempre. Aconteceu o mesmo em todo o lado: Alcântara, Docas, 24 de Julho, Santos. “A rua deu um salto brutal em termos de reconhecimento”, admite.

Nos últimos tempos antes da pandemia, porém, a zona já estava a sair de moda. A reabilitação de alguns edifícios que antes estavam muito degradados levou ao fecho de casas que deram fama ao Cais e nova oferta surgiu noutras partes da cidade. “O Jamaica está muito ligado a este sítio, a esta rua. Mas o tempo não pára, há que seguir em frente e recomeçar com mais gás”, diz Mário Dias, chamando a atenção para o trocadilho entre o que acabou de dizer e o sítio para onde os três bares se vão mudar.

O Europa na hora da despedida Ricardo Lopes
O Europa na hora da despedida Ricardo Lopes
O Europa na hora da despedida Ricardo Lopes
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Ricardo Lopes

É claro, acaba por reconhecer Fernando Pereira, que lhe custa um bocadinho este processo. “Aos 15 anos já estava a ajudar o meu pai atrás do bar”, recorda. E foi lá que aprendeu muito sobre a vida. “Isto é uma escola.”

Mais caótico do que o Jamaica e o Tokyo – onde as paredes ainda têm capas de discos dos Nirvana, Pink Floyd, Supertramp e The Doors, entre outros –, no Europa o tempo parece suspenso. Ainda há cervejas no balcão, uma garrafa gigante de vodka, carimbos e blocos de notas com o número de senhas vendidas na noite anterior.

Essa noite, afinal, foi há muitas noites. “O último dia em que esta casa abriu foi a 18 de Março de 2020”, informa Rui, primo do dono, Pedro Vieira, e trabalhador ocasional neste bar. “Pois é, este Europa já era”, comenta, cigarro quase apagado ao canto da boca, à medida que vai guardando as últimas coisas para levar. Quase tudo o que era importante já saiu. A pista está impraticável, tal a quantidade de quinquilharia. Afinal, embora não pareça, a casa existe desde 1947. “Isto agora é tudo para carregar directo para a sucata.”

Os armazéns do Cais do Gás onde vão surgir os novos espaços Ricardo Lopes
Os armazéns do Cais do Gás onde vão surgir os novos espaços Ricardo Lopes
Os armazéns do Cais do Gás onde vão surgir os novos espaços Ricardo Lopes
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Ricardo Lopes

Uma curiosidade: poucos anos depois da abertura, o Europa foi remodelado segundo projecto do arquitecto Cassiano Branco. Atrás do balcão existe um alçapão que conduz a uma cave nauseabunda, onde se guardam mesas velhas, holofotes e equipamento velhíssimo e enferrujado. Há uma colecção de CD carcomidos pela humidade, mas há também um antigo cofre embutido numa parede e umas escadinhas interrompidas que testemunham essa outra encarnação do bar.

Não há saudades na boca de Rui. “O outro sítio tem quase o dobro do tamanho deste. Acaba por ser bastante melhor. E vai ser uma coisa diferente”, diz, referindo a possibilidade de abrir também durante o dia para, por exemplo, servir refeições. O Europa será o único dos três espaços a ter uma porta directamente para o rio.

“Ouve lá, o outro lado é para aí o triplo!”, comenta Mário Dias. “Pois é, mas pode ter este tamanho”, responde Fernando Pereira. Foi a sua mão que desenhou o projecto para os novos espaços no Cais do Gás, que por ora são um depósito de barcos velhos. No Jamaica será possível aumentar ou diminuir a pista de dança consoante o movimento de cada noite. “Decoração simplicíssima, não há cá berloques”, esclarece. “O Jamaica vive do público. Entra-se no Jamaica para se curtir a música, para se beber um copo e para se divertir com os outros, mesmo que não os conheçamos.”

E isso, assegura, é válido em qualquer sítio. Que comece The Last Waltz.