Vacinação de doentes de risco entre os 65 e os 79 condicionada pela chegada de mais vacinas da Pfizer

Na união Europeia, Portugal é o quinto país com a percentagem mais elevada de doses de vacinas contra a covid-19 administradas relativamente ao total das distribuídas.

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Rui Gaudencio

As pessoas entre os 65 e os 79 anos com patologias associadas a maior risco de doença grave e mortalidade por covid-19 estão a ser prejudicadas por causa da estratégia actual de vacinação em Portugal e pela consequente falta de vacinas da Pfizer. Como as doses da vacina da Pfizer-BioNtech, o nosso principal fornecedor, estão a ser canalizadas para os idosos a partir dos 80 anos, e dado que a vacina da AstraZeneca não é recomendada a maiores de 65 anos, este grupo prioritário vai ter que aguardar até à chegada de um grande volume de doses da vacina da Pfizer, que só ocorrerá a partir de Abril.

O último relatório da vacinação divulgado pela Direcção-Geral da Saúde (DGS) indica, aliás, que a faixa etária entre os 65 e os 79 anos é das que menos está coberta pela primeira dose das vacinas, 3% do total, contra 34% dos idosos a partir dos 80 anos e 7% das pessoas entre os 50 e os 64 anos. Menos só mesmo o grupo entre os 18 e os 24 anos (2%).

A Ordem dos Médicos defendeu, na quarta-feira, a administração da vacina da AstraZeneca a maiores de 65 anos, alegando que existem dados “suficientemente robustos” para que tal possa acontecer, “indo ao encontro das regras emanadas pela Organização Mundial da Saúde” e “tendo também em conta as recomendações emanadas pela Agência Europeia do Medicamento e a FDA [Food and Drug Administration]”. Esta quinta-feira, a comissão de vacinas alemã aprovou a administração da vacina da AstraZeneca a pessoas com mais de 65 anos, alterando a anterior decisão, à semelhança do que já fizeram a França, a Bélgica e também a Suécia.

Esta hipótese ainda permanece em estudo em Portugal, onde estão a ser equacionados vários cenários, tendo em conta o facto de que falta pouco tempo para a entrega, no segundo trimestre deste ano, de um grande volume de vacinas, cerca de nove milhões de doses das várias farmacêuticas. Neste primeiro trimestre, Portugal apenas conta receber 2,5 milhões de vacinas.

A estratégia que actualmente está a ser seguida tem como principal objectivo atingir a meta recomendada pela Comissão Europeia de vacinar 80% dos idosos a partir dos 80 anos até ao final de Março. Na semana passada, numa audição na Comissão de Saúde da Assembleia da República, o novo coordenador da task force para o plano nacional de vacinação contra a covid-19, Henrique Gouveia e Melo, explicou que concentrou “todo o esforço e mais de 90% de todas as vacinas” disponíveis nas faixas etárias mais idosas em nome do objectivo de “salvar vidas” e aludiu ao “constrangimento difícil” de a vacina da AstraZeneca não poder ser administrada aos maiores de 65 anos.

Nos últimos dias, têm-se multiplicado os apelos para que sejam incluídos ainda nesta primeira fase de vacinação outros grupos, como os das pessoas com doença mental grave e os transplantados. Esta quinta-feira, durante uma audição na comissão eventual para o acompanhamento da aplicação das medidas de resposta à pandemia, o coordenador da Comissão Técnica de Vacinação contra a covid-19 da DGS admitiu que está a ser analisada a inclusão de pessoas com doenças que não foram consideradas prioritárias no plano na segunda fase do plano, mas não adiantou pormenores.

“Para a fase 2, estão já a ser definidas várias linhas de acção. Estão a ser criadas estratificações adicionais nas doenças já definidas [no plano] e estão a ser definidas as doenças que, sendo de menor prevalência, estão associadas a risco significativo de internamento e mortalidade”, disse Valter Fonseca, que deu o exemplo da trissomia 21, já adiantado pela directora-geral da Saúde. Este trabalho está a ser desenvolvido em parceria com sociedades científicas, ordens profissionais e associações de doentes.

O plano actual prevê para a segunda fase, a arrancar em Abril, a vacinação das pessoas entre os 50 e os 64 anos com pelo menos uma das seguintes doenças: diabetes, neoplasia maligna activa, doença renal crónica, insuficiência hepática, hipertensão arterial e obesidade.

86% das doses administradas

Na União Europeia, Portugal é dos países que menos doses de vacinas de covid-19 deixa armazenadas. É o quinto país com a percentagem mais elevada de doses administradas relativamente ao total das distribuídas.

Os dados mais recentes enviados para o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) indicam que Portugal utilizou até à data 86,6% do total das doses recebidas, bem mais do que países como a Alemanha (70,6%), a França (68,4%) , e a Itália (67,6%).

Acima de Portugal estão a Estónia e a Lituânia, que administraram o total das doses recebidas, a Dinamarca (98,9%) e a Grécia (87,8%).