As dicas de Eunice Maia para uma cozinha mais sustentável

No workshop por ocasião dos 31 anos do PÚBLICO, a fundadora da Maria Granel assinalou que “não podemos continuar a dar-nos ao luxo de desperdiçar e descartar alimentos”.

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Eunice Maia venceu o prémio nacional Terre de Femmes 2019, da Fundação Yves Rocher, que reconhece mulheres que se destacaram na preservação da biodiversidade. GUSTAVO FIGUEIREDO

Esta sexta-feira, 5 de Março, o PÚBLICO comemora 31 anos. O aniversário é assinalado com um fim-de-semana de comemorações — virtuais, claro — viradas para o futuro. Eunice Maia deu o pontapé de saída com um workshop dedicado ao consumo sustentável. A fundadora da loja Maria Granel, em Lisboa, deu dicas aos leitores para uma cozinha com menos desperdício, desde como organizar a despensa e o frigorifico, até à conservação de alimentos.

Hoje, a missão de vida de Eunice Maia é dedicada à redução do desperdício. Em 2015, abriu a mercearia Maria Granel onde, como o próprio nome indica, se vende um pouco de tudo a granel. Começaram com 240 produtos alimentares e hoje vendem mais de 1200. “Nada na minha vida vinha prever que eu fosse ter uma mercearia com uma missão na área da sustentabilidade, porque tenho um passado marcado por um paradigma de consumismo exacerbado”, conta aos leitores que assistiram ao workshop.

A vida deu precisamente uma volta de 180 graus e, no início de 2020, publicou, inclusive, um livro dedicado ao tema do desperdício zero. A cozinha é precisamente um dos locais cruciais na redução de resíduos, garante, já que em Portugal o lixo doméstico representa um milhão de toneladas, todos os anos. “Além de ter consequências sociais, o desperdício alimentar também é uma questão ética. Não podemos continuar a dar-nos ao luxo de desperdiçar e descartar alimentos”, sublinha Eunice Maia. Mas então que mudança podemos adoptar na nossa cozinha para reduzir o desperdício? Começa tudo por “pequenos gestos”, encoraja.

Alimentos sazonais e locais numa dieta mais vegetal

A primeira dica de Eunice Maia é daquelas que já sabemos de cor, mas que, por vezes, nos esquecemos de aplicar: “Seguir a nossa dieta mediterrânica”, naturalmente mais “sustentável e com menor impacto ambiental”. É importante dar preferência ao consumo de alimentos sazonais e de produção local. Além de apoiar a economia e “os nossos agricultores”, explica, terá “menor impacto ambiental”, por exemplo, em termos de transporte e refrigeração.

Eunice Maia apela a que, pelo menos uma vez por semana, se faça uma refeição apenas com produtos de origem vegetal. No geral, relembra, é importante reduzir o consumo de carne.

Planear a ida às compras e as refeições

A redução do desperdício começa antes da ida às compras. Antes de sair de casa, “olhar para aquilo que já temos”, fazer “uma auditoria rigorosa à despensa e frigorifico” e perceber o que se consome mais em casa. Ainda antes de sair de casa, planeie as refeições da semana com base no que tem e compre apenas o que vai precisar, nas quantidades certas.

Dar preferência a mercearias a granel, “permite reabastecer na quantidade necessária”. Na Maria Granel é possível levar os seus recipientes. Nas compras, Eunice Maia deixa também “o convite para que escolhamos a fruta e os legumes feios”. “Não é por ser feios que são menos saborosos”, garante.

Aproveitamento integral dos alimentos

Eunice Maia assinala que, felizmente, está no nosso “ADN cultural aproveitar integralmente os alimentos” e usar as suas “partes menos nobres”, como talos, ramas ou cascas. Se precisar tirar a casca a algum alimento é aconselhado usar um descascador, porque permite um corte mais fino e com menor desperdício. Se quiser comer a casca de alimentos biológicos, use uma escova para lavar.

Mas então como usar essas partes “menos nobres”? Aproveitar a casca do ananás para fazer uma infusão, a água de cozedura das leguminosas como substituto das claras em castelo, as cascas da melancia para fazer doce ou a rama da cenoura para fazer molho pesto — são apenas alguns dos exemplos dados.

Organizar a despensa com frascos transparentes

A despensa deve ser um local limpo, seco e com uma temperatura estável abaixo dos 25ºC, aconselha Eunice Maia. Para organizar a despensa, o ideal é usar frascos que já tenha em casa. “Não há nada mais sustentável do que usar o que já temos”, relembra.

Os frascos devem ser legendados com marcadores para que nada seja confundido. A legenda pode, ainda, incluir informações importantes como a validade, de forma a, mais uma vez, reduzir o desperdício. Não se esqueça de esterilizar os frascos antes de colocar um novo alimento. Para isso, basta colocar no forno a 180ºC durante dez minutos. Já as tampas podem ser esterilizadas em água a ferver durante o mesmo tempo.

É importante organizar os produtos por secções de tipo de alimento. Por exemplo, as leguminosas todas juntas, as farinhas, as massas e assim sucessivamente. “Saber onde se localizam, torna o acesso aos produtos mais fácil”, assinala a autora de Desafio Zero.

Eunice Maia deixou ainda uma dica para evitar pragas nos alimentos mais perecíveis, como farinhas: basta colocar uma folha de louro ou cravinho em contacto com o alimento, dentro do frasco.

Por fim, o frigorífico

Antes de começar a intervenção e reorganização do frigorifico, deve verificar se está abaixo de 5ºC e o congelador a 18ºC negativos. Depois, deve então começar a organizar os alimentos por categorias. Na parte superior fica a comida pronta a comer, já preparada, e tudo o que for mais perecível. Na parte intermédia, acomode os lacticínios, os ovos — que ao contrário do que pensa, não devem ficar na porta — e o que quer deixar a descongelar. Os legumes ficam então reservados para a base do frigorifico, sempre separados. Fora do frio, devem ficar alimentos como o tomate, os alhos, as cebolas e as batatas.

Eunice Maia deixa também algumas dicas de conservação de alimentos. Sabia que as cenouras devem ser conservadas submersas em água? Já a alface, a rúcula e outros verdes, depois de lavados e secos, devem ser envoltos num pano de cozinha húmido e guardados dentro de um recipiente tapado. Quanto à salsa e os coentros podem ser colocados dentro de um frasco de vidro ou copo com os talos em água.

Para terminar, Eunice Maia aconselha a que não se exagere em porções, de forma a evitar o desperdício. Nesse combate ao desperdício zero destaca também o papel de projectos como o Too Good to Go, a Refood, o supermercado Good After ou Kitchen Dates. Relembra também, em jeito de conclusão, a frase de Anne-Maria Bonneau, uma chef especialista em desperdício zero, que deixou registada na epígrafe do seu primeiro livro: “Não precisamos de uma mão cheia de pessoas a fazer desperdício zero na perfeição. Precisamos de milhões que o façam imperfeitamente.”