Os animais da Amorempatia vão mudar de casa – e, mais do que doações, precisam de amor

A Amorempatia vai deixar o espaço que, durante os últimos anos, foi a casa de centenas de animais resgatados, no distrito de Lisboa. Para a construção urgente de um novo santuário animal, a associação apela à doação de bens e à ajuda de voluntários.

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Em 2018, Ricardo Oliveira perguntou a 50 pessoas o que pensavam que mais faltava aos animais. Sem saberem, todas concordaram: amor. A Amorempatia é um centro de protecção e reabilitação animal, que acolhe animais vítimas de maus-tratos, entregues por quem não pode mais cuidar deles, ou na eminência de abate para consumo humano.

“Comecei este projecto com o que tinha nos bolsos, e tinha os bolsos vazios. O caminho que aqui fui trilhando chocou com uma pandemia que lhe veio retirar qualquer sustentabilidade. Foi o primeiro momento em que precisei da coragem para pedir ajuda”, conta Ricardo Oliveira, fundador da Amorempatia, ao P3. Em 2021, a associação viu-se forçada a abandonar o espaço que, durante os últimos anos, foi a casa de centenas de animais, por já não garantir a segurança e qualidade de vida necessárias para as espécies.

Para realizar uma mudança segura e responsável, ainda que urgente, para um novo espaço de sete hectares, mais do dobro do terreno anterior, a Amorempatia vai reunir com biólogos e um arquitecto paisagista para perceber como construir o centro, preservando as espécies autóctones. “Já estamos a pensar em planos B e C. Por mais que estejamos completamente apaixonados pelo espaço, não podemos pôr em risco outros animais para proteger estes.”

A Amorempatia não revela o local exacto das propriedades, apenas que ficam no distrito de Lisboa, para não correr o risco de um crescimento do abandono de animais nas proximidades. “Seria muito complicando, tendo em conta o alcance que a associação já tem” – 16 mil seguidores no Instagram e mais de sete mil no Facebook.

No Santuário Empatia, todos, do porco à galinha, são respeitados de igual forma. O objectivo último é partilhar as experiências entre pessoas e animais no centro e sensibilizar outros para que se tornem empáticos e preocupados com quem os rodeia. “Se não recuperarmos a capacidade de entender quem vive connosco, como vamos compreender o dano que estamos a causar ao planeta?”, questiona Ricardo Oliveira.

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Para quem quer ajudar a Amorempatia a mudar de casa e continuar a cuidar de dezenas de animais, existem várias opções. A necessidade mais urgente é, agora, encontrar uma garagem em Lisboa, para usar temporariamente como armazém para todas as doações em géneros recebidas. Os bens que não forem utilizados pela associação vão ser disponibilizados para que outras organizações de protecção animal os aproveitem. Para Ricardo, “não faz sentido uma associação ter mais e outra menos, os animais não têm qualquer culpa disso”.

Também é possível apadrinhar um animal, a partir de 30 euros por mês; fazer donativos, e micro donativos, por transferência bancária, MbWay ou Paypal; ou doações em géneros: tábuas, paletes, gradeamentos, malha, telhas, lonas, areia, entre outros.

“Quem nos acompanha reagiu ao apelo de forma incrível”, diz Ricardo. “Sentimos cada vez mais a responsabilidade pela confiança que as pessoas depositam em nós, e a urgência em mostrar-lhes que estão certas.”

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“Um dos nossos princípios fundamentais é o diálogo. Ninguém maltrata ninguém para proteger animais. Não importa se é toureiro, dono de uma exploração pecuária, se cria cães.” A Amorempatia também não diz ser uma organização vegan, nem apela à eliminação do consumo de carne, porque “não é inclusivo e não respeita uma história e cultura que existem”.

Ricardo cresceu numa exploração agro-pecuária, de produção caseira, mas, diz, nunca conseguiu ultrapassar o quanto lhe custava ver o sofrimento dos animais. “Chegou um momento em que decidi que tinha de usar a minha vida para isto.” Dedica, agora, as 24 horas dos seus dias à Amorempatia, dorme com animais que estejam doentes, está sempre no centro, com mais dois responsáveis pela associação, enquanto consultor em comportamento e bem-estar animal.

Além do Santuário Empatia, a associação sem fins lucrativos presta um serviço gratuito (ou de doação livre) de consultoria em comportamento e bem-estar animal, a famílias e cães que precisem de ajuda; e desenvolve o Hopeful, um trabalho de reabilitação de animais de companhia para que estejam tranquilos e capazes de integrar uma família que os queira acolher. A adopção é acompanhada e inclui um plano de integração em ambiente familiar, com a duração de um mês.

O santuário não é aberto a visitas, mas quer promover, no novo espaço, uma parceria com escolas para que pequenos grupos de crianças o possam visitar e aproximar-se dos animais. “Acreditamos que as crianças e os animais podem tornar-se os verdadeiros exércitos contra o egoísmo que a sociedade adulta humana vive”, afirma Ricardo. “Têm de ser os animais a transformar o ser humano, para que o ser humano não continue a danificar o planeta.”