Que área irei escolher?

Qual o papel dos psicólogos neste processo? Não escolhemos pelos jovens. Eles sabem que está nas suas mãos tomar essa decisão. Somos alavanca e não muleta!

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Daniel Rocha

“O que queres ser quando fores grande?” Qual será a minha vocação? Que área irei escolher? Que curso hei-de tirar? No seu percurso académico os jovens deparam-se com estas questões: no 9.º ano, quando escolhem uma área/curso e no 12.º ano, quando querem prosseguir estudos para o ensino superior. Não raras vezes estes são momentos de dúvida e de angústia que assaltam o seu pensamento, perante a aproximação do momento de tomada de decisão. E se eu me arrepender? E se não for o melhor para mim? Decidir é fazer uma escolha e isso implica optar por uma área/curso em detrimento de outra/os.

Na qualidade de psicóloga acompanho jovens ao nível do seu desenvolvimento vocacional e tem sido um privilégio poder apoiá-los na construção dos seus projectos de vida. De acompanhá-los na dissipação da neblina inicial, no momento em que se confrontam com um receio que é um misto entre a agorafobia da ausência de escolha e a claustrofobia de uma decisão, que os possa desiludir e/ou limitar.

Adolescer é quantas vezes uma mistura de estações do ano, ali algures entre o/a Invernera e a/o Primavão do José Luís Peixoto. A principal tarefa da adolescência é a construção da identidade; é procurar responder à questão existencial: quem sou eu? E uma dessas vertentes da identidade de um adolescente é o seu perfil vocacional, que não termina nesta fase, mas antes se prolonga pelo seu percurso de vida.

Quando nos confrontamos com escolhas exigentes que têm um impacto significativo na nossa vida, é importante ponderar todos os factores e não deixar entregue ao acaso uma tarefa desta natureza. É essencial fazer uma escolha planeada, informada e consciente e não ser o destino a decidir por nós. No âmbito vocacional esses factores são: os interesses profissionais e por actividades de lazer (o que se gosta mais e o que se exclui), as aptidões (o que tenho mais jeito para fazer ou para aprender), os valores (aquilo a que dou mais importância - se o estilo de vida proporcionado pelo trabalho, a variedade, o salário, ter contacto com pessoas, etc.), os objectivos que quero alcançar, entre outros.

E qual o papel dos psicólogos neste processo? Não escolhemos pelos jovens. Eles sabem que está nas suas mãos tomar essa decisão. Somos alavanca e não muleta! Os psicólogos oferecem uma ajuda especializada na construção de projectos vocacionais e de identidade. Acrescentamos valor a um processo de desenvolvimento pessoal. Como? Ajudando na promoção de competências de planeamento, exploração, decisão e confiança e também fornecendo ferramentas de autoconhecimento, relativas à formação escolar e ao mundo profissional. E os famosos “testes psicotécnicos”, qual será a sua validade? São instrumentos num processo e servem como meios complementares de ajuda, não oferecendo a resposta final. Mais importante do que os resultados destas provas é a sua partilha e reflexão em entrevista com o jovem.

E os pais no que poderão ajudar? Encorajando os seus filhos a fazerem uma exploração planeada e das suas habilidades/potencialidades; realçando as suas características positivas e assim promovendo uma maior consciência das mesmas; demonstrando confiança na responsabilidade dos filhos para tomarem uma decisão; supervisionando sem controlar; incentivando o contacto com actividades profissionais; pedindo aos filhos que expliquem em que foram baseadas as suas decisões e partilhando o seu próprio processo de descoberta vocacional. Porque saberem que também os pais passaram por um processo semelhante e quais foram as suas dúvidas e inquietações, ajuda os filhos a relativizarem o peso desta tomada de decisão.

Importante também é os pais evitarem projectarem-se e decidirem pelos seus filhos. As interferências ambientais podem ter uma influência nefasta e dificultar a tomada de decisão.

Não há nada mais angustiante do que ver um jovem ambivalente entre escolher algo que o preencha e o faça sentir-se feliz e realizado ou tentar agradar a alguém, percorrendo o calvário de cumprir um sonho que não é o seu. Decidir o que é melhor para si no domínio vocacional, quando baseado numa escolha planeada, reflectida e consciente, feita de forma autónoma e responsável é um direito que assiste aos jovens.

Planear uma escolha vocacional implica assumir riscos e preparar para um mundo desconhecido. Esta tarefa será melhor assegurada quando os jovens encontram força naquilo que os move, que os motiva e que os apaixona e não se ficam pelos “mínimos olímpicos”!