Como podem os pais lidar com a culpa durante e depois da pandemia

A culpa instalou-se no coração das famílias, com os pais a sentirem-se a fracassar em vários campos todos os dias. Mas, há formas de evitar o sentimento ou de o transformar numa energia positiva.

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"Se sentirmos que estamos a falhar, sentimo-nos deprimidos; se estivermos preocupados em não tomar a decisão certa, sentimo-nos ansiosos" Unsplash/Melanie Wasser

Como mãe, sou permeável à influência das nossas mensagens culturais, e caí na narrativa nunca podemos dar o suficiente, fazer o suficiente ou ser suficientes. Como psicóloga, porém, sei quão nocivo para o nosso bem-estar é este fio constante de culpa. A culpa pode ser útil como uma emoção desconfortável que nos motiva a emendar e a mudar comportamentos ofensivos, mas no caso da culpa dos pais, a maior parte do tempo estamos apenas a prejudicar-nos a nós próprios.

Entretanto, entrámos numa pandemia global que destruiu as nossas já precárias vidas parentais e forneceu amplas provas das falhas dos nossos sistemas. Os empregadores estão à espera que as nossas crianças, que aprendem à distância, se comportem impecavelmente durante o nosso dia de trabalho, e as mulheres estão a deixar empregos em número recorde para darem assistência aos seus filhos, de repente presos em casa, porque simplesmente já não conseguem fazer tudo. Ilyse DiMarco, psicóloga clínica e autora do livro Mom Brain, que será lançado a 9 de Maio, resume o problema: A questão da culpa neste momento é que existe culpa potencial com qualquer coisa que se faça”.

No actual cenário de pandemia, os níveis de stress subiram, com os pais a superarem os não pais nos inquéritos, criando terreno fértil para problemas de saúde mental. Estamos a sentir que não estamos à altura nalguma área ou talvez não estejamos a fazer as escolhas certas, diz DiMarco. Não surpreendentemente, se sentirmos que estamos a falhar, sentimo-nos deprimidos; se estivermos preocupados em não tomar a decisão certa, sentimo-nos ansiosos.

O quotidiano de uma pandemia deu-nos uma série de novas razões para nos sentirmos culpados. Para além da impossibilidade de, em simultâneo, trabalharmos, sermos pais e, em alguns casos, de sermos professores dos nossos filhos, enfrentamos diariamente decisões em torno da saúde e da segurança.

Permitimos saídas para um jogo? E se todos os amigos do meu filho estiverem a jogar basquetebol e eu disser que não? Como escolher entre defender as aulas presenciais e tecer argumentos a favor do ensino à distância, quando na primeira situação o nosso filho pode apanhar covid-19 e no segundo cenário ficar deprimido?

Não há boas escolhas nem boas respostas, mas a garantia de ficar com sentimentos de culpa, com uma pitada de julgamento causada pela pressão social. “A culpa é uma emoção útil quando nos diz que fizemos algo de errado”, diz a psicóloga clínica Jill Stoddard, autora de Be Mighty. “O que está a acontecer agora é que sentimos ter feito algo de errado, mesmo quando estamos a fazer o melhor que podemos.”

Então, o que podemos fazer em relação à culpa que paira, pesada, à volta do nosso pescoço colectivo? Os especialistas sugerem uma combinação de atenção, de autocuidado significativo e de mudança de perspectiva.

Mindfulness

Não ignore a culpa, reconhecê-la significa que pode fazer algo em relação à mesma. Mesmo que a nossa culpa relacionada com a pandemia possa ser descabida, Stoddard diz que ainda podemos usar o sentimento para a sua função positiva e fazer rectificações. No seu caso, conta, disse aos seus filhos: Gostava muito de poder passar mais tempo convosco, e tem sido tão difícil para todos nós. Um dia, as coisas serão diferentes. Lamento não poder estar mais disponível. Ou seja, não se está a dizer: ‘Fiz asneira'; está a dizer-se ‘Dói-me o coração por, agora, não conseguir fazer as coisas da maneira que gostaria’.

Lembre-se de que não está sozinho. Sentimentos de fracasso são uma experiência universal dos pais durante a pandemia do coronavírus. A procura de apoio social é fundamental para a saúde mental em tempos de stress. Pode ser tão simples como enviar uma mensagem a um amigo para partilhar as falhas” como progenitor. Esta breve ligação, só por si, oferece apoio e solidariedade, e pode diminuir o nosso sentido de culpa e inadequação quando ouvimos os sentimentos e experiências semelhantes dos outros.

Pratique a autobondade. Fale consigo próprio como falaria com um amigo seu: Estás a fazer o teu melhor neste momento. Esta prática ajuda a mudar os padrões de pensamento de autocrítica para autocompaixão, o que é conhecido por aumentar as emoções positivas e diminuir as negativas, incluindo a culpa.

Cuide-se (de verdade!)

Divida por prioridade as exigências diárias do seu tempo e energia. DiMarco aconselha a fazer isto, perguntando: O que é mais importante, numa base diária ou de hora a hora? Concentre-se naquilo que é mais importante na lista elaborada, e liberte-se das outras potenciais tarefas em vez de se sentir culpado por, inevitavelmente, não conseguir fazer tudo.

Mas, importante não esquecer: dê prioridade a si próprio. Uma peça importante, e contra-intuitiva, para gerir a culpa por não estar presente para todos os outros, é também estar presente para si próprio, e certificar-se de que está algures na lista, diz DiMarco. Planeie com antecedência para garantir tempo para si na rotina diária, mesmo que sejam apenas 15 a 30 minutos. Isto pode exigir um entendimento com o seu parceiro e/ou filhos sobre quando não estará disponível no dia seguinte. Seja realista quanto ao tempo que necessita e como o gastará (por exemplo, 15 minutos numa aplicação de meditação). Depois, comprometa-se a fazer com que isso aconteça.

Lembre-se das noções básicas. Certificamo-nos de que os nossos filhos estão bem alimentados, mas será que estamos a dormir, a beber água suficiente e a comer bem para satisfazer as nossas próprias necessidades básicas? Estes elementos essenciais de gestão do stress reforçam-nos, o que nos ajudará a afastar a culpa.

Mude o foco

Ajuste as expectativas. Se espera manter-se sereno e nunca perder a calma, está a preparar-se para o fracasso, diz a psicóloga infantil e de adolescentes Emily King. Perceba que, emocionalmente, está mais frágil neste momento, repare nisso e vá dar uma volta à rua durante dez minutos, ou outra coisa qualquer, em vez de entrar num ciclo negativo que o deixará emocionalmente exausto.

Considere os seus êxitos. Mude o argumento do seu quotidiano, deixando de se concentrar apenas nos aspectos negativos. De que se sente orgulhoso? O que podem os seus filhos fazer agora que não conseguiam fazer há um ano? Redefina o sucesso para si e para os seus filhos durante uma pandemia global. O sucesso não tem a ver com notas, mas com independência ou tarefas, diz King. Para os pais, o sucesso pode ser alcançado todos os dias com todos abrigados, alimentados e na cama em segurança.

Invente novas narrativas. Em vez de olhar para si próprio como nunca sendo suficiente, que tal reconhecer que tem sido — e continua a ser — suficiente para suportar uma pandemia global enquanto pai? Que geração recente de pais conseguiu isto? Na verdade, não somos apenas suficientes, somos muito maiores. Lembre-se disto quando a culpa parental começar a espreitar — tanto agora como depois da pandemia.


Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post